sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

REFORMAS ESTRUTURAIS: Uma perspectiva de esquerda para o quinto lugar.

 
Foto: Tarso Genro
Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar

O Brasil já não é mais o mesmo, mas os fundamentos do Brasil atual precisam de algumas reformas estruturais para que possamos ser outro país integralmente.


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Tarso Genro (*)
Imprensa/Palácio Piratini

O Brasil ficou em segundo lugar, em 2013, no ranking entre os 90 países que elevaram taxa de juros, só perdendo para a República de Gâmbia, fechando-a em 10% ao ano. Paralelamente o CEBL (sigla da instituição em inglês) – Centro de Pesquisas Econômicas e Negócios - registra que em 2023 seremos a 5ª economia do mundo. Prevê, aquela instituição insuspeita de proteger nossos governos, que alcançaremos daqui a dez anos um PIB de 3,2 trilhões de dólares com o crescimento, portanto, de 1 trilhão de dólares no PIB entre 2013 e 2023.

Para que tenhamos uma ordem de grandeza relativa do que está acontecendo em nosso país,  lembremos que a proposta do arquiteto da política de reformas na China Popular, Deng Xiaoping (1904 – 1997) foi chegar no seu país em 2050  - numa nação de 1 bilhão e 300 mil habitantes no dias de hoje - a um PIB de 6 trilhões de dólares, “quando teremos” – dizia Deng - “uma renda per capita, de 4 mil dólares”,  com uma população de  1,5 bilhão de  pessoas.

Quatro mil dólares, com uma forte distribuição de renda já  teria sido um impacto gigantesco no mercado interno em 2050, considerando ainda que a China - já nos próximos 10 anos - portanto até 2024, retirará da miséria e da pobreza mais duzentas milhões de almas. Mas, as previsões do Presidente Deng “furaram”: a China já chegou em 2012 a um PIB de 8,28 trilhões de dólares,  mesmo reduzindo seu crescimento em função da crise européia e americana, promovendo já em 2013 uma renda “per capita” de mais de 9.000 dólares ano.

A China é um Estado Nacional unificado há mais de 2.5OO anos e fez, recentemente, uma poderosa Revolução Popular. Esta revolução instaurou no poder  um Partido Comunista que centralizou com poderes quase absolutos, o Governo e a Política. Em sucessivas fases de disputas permeadas por ações anárquicas de violência a China abriu uma etapa nacional-desenvolvimentista, integrada na economia global, que preparou o país para ser a economia mais forte do Século. No século XXI a China pelo menos dividirá hegemonia sobre o mundo, com os países capitalistas mais desenvolvidos, mas certamente em condições de superioridade militar e econômica.

Sobre o caso chinês – seu processo de desenvolvimento econômico e social acelerado - podemos prestar atenção exclusivamente nos seus métodos não democráticos (dentro da perspectiva das democracias ocidentais)  ou, por escolha ideológica, só no fato histórico formidável de um país que tirou da miséria e da doença “um Brasil e ½”, em mais ou menos trinta anos. Ou, se escolhermos,  podemos fazer uma terceira opção e prestar atenção - para fazer justiça ao seu povo e aos seus lutadores e dirigentes -  nos dois processos: seu crescimento espetacular, combinado com a promoção social dos mais pobres, num regime político não democrático para os nossos olhos,  num país que até há pouco foi praticamente feudal, tornou-se “agrário” e  depois industrialmente atrasado. 

Partir deste olhar mais abrangente para concluir se aquilo que acontece na China é, ou não, um progresso humanista de cunho social, que tem elementos importantes de valor universal, não é um olhar manipulatório. O que ocorre ali pode ter sido a única saída de uma civilização de 5.OOO anos, cujos conteúdos culturais e políticos jamais experimentaram os processos de modernização política e social semelhantes à Revolução Francesa, à Revolução Americana ou à Gloriosa Revolução Inglesa. As chacinas coloniais e imperiais, que estas mesmas revoluções levaram adiante, não invalidaram as suas conquistas civilizatórias, sem “luzes” e sem humanidade, que  fomentaram  o desenvolvimento capitalista como progresso nos seus moldes clássicos.

Para pensar o Brasil como 5ª. economia mundial,  creio que devemos adotar a terceira hipótese: ver o processo como um todo, sem descarte do compromisso com a democracia e a República, com os direitos humanos e com a sustentabilidade. Verificar, a partir daí,  o que podemos aproveitar do universal que tem a experiência chinesa, para que cheguemos em 2023, não somente como quinta economia mundial, mas no mínimo  a 5ª. em distribuição de renda, 5ª.em educação, 5ª.em sustentabilidade, 5ª. em melhor saúde pública, 5ª. em melhor mobilidade urbana, 5ª. em respeito aos direitos humanos.

Parto desta reflexão porque de nada adianta ser a quinta economia do mundo, mantendo as desigualdades sociais e econômicas que ainda existem no Brasil.

Carregamos  nas costas do progresso a exclusão, a violência,  a insegurança e os brutais contrastes entre ricos e pobres, que não somente são geratrizes de todos os tipos de violência, mas também se apóiam na criação de empregos de baixa qualidade e qualidade de vida, material  e cultural, muito inferior ao possível e desejável nas grandes regiões metropolitanas.

Nossos governos federais não conseguiram uma correlação de forças favorável, não só para obter o volume de recursos necessários para financiar a saúde pública, taxando as movimentações financeiras, como também não conseguiram condições políticas para uma Reforma Tributária,  que pudesse reordenar de forma mais democrática e eficiente as relações federativas, no plano econômico-financeiro. 

O Prefeito Fernando Haddad, por exemplo, neste momento sofre uma forte campanha de difamação política pela grande imprensa por pretender adotar um mínimo de justiça tributária, com a simples correção do valores do IPTU – o que fizemos em 1990 em Porto Alegre com apoio dos Conselhos Regionais do Orçamento Participativo e dos movimentos sociais, que hoje frequentemente tornam-se visíveis somente  em demandas mais imediatas.

Tivemos no país avanços significativos na distribuição de renda, na inclusão social e educacional, na defesa dos pobres do campo, na criação de milhões de empregos, que dão um nível de subsistência mínimo aos assalariados da nação.

Em compensação fomos “obrigados”, pelo “mercado”,  a aumentar a taxa de juros, mesmo com índices reduzidos  de crescimento na economia, o que implica em reconhecer que o Brasil já não é mais o mesmo, é verdade, mas os fundamentos do Brasil atual - que não é mais o mesmo - precisam de reformas para que possamos ser outro país, integralmente.

A grande questão política, para a esquerda que recusa a fantasia histórica de que está em curso uma revolução socialista no mundo ou que há possibilidades concretas de um horizonte socialista à médio prazo, é a seguinte: o que fazer para que a democracia “volte a ter sentido”, como diz Boaventura Souza Santos? Até agora o Estado Democrático não criou condições para interferir, de molde a proporcionar uma taxa de juros compatíveis com os níveis internacionais. Nesta questão, estamos apenas à frente da remota Gâmbia  (país da África Ocidental com uma população ligeiramente superior a porto Alegre), o que nos obriga a pensar quais as mudanças estruturais que “devemos”, para que a  taxa de juros, portanto, compatibilize-se com o processo de desenvolvimento?

Deixando de lado a fantasia de que se trata, apenas, de arbitragem voluntarista da Presidenta ou do Banco Central e tendo consciência que, na verdade, esta deve ser uma “guerra mundial” política, para vencer um tema que começa por decisões  internas sobre o modelo de desenvolvimento. Lembro que a China adotou na sua estratégia –como escreveu Perry Anderson-   com “a combinação do que é agora, de acordo com qualquer medida convencional, uma economia predominantemente  capitalista, com o que todavia é, inquestionavelmente –de acordo com qualquer medida convencional- um Estado comunista, sendo ambos os mais dinâmicos da sua classe até hoje”. Ou seja: planejamento de longo curso através do Estado,  dinâmica de mercado capitalista contida por regras de distribuição “pétreas”, monolitismo político para aplicação das normas do novo modelo.

Se quiséssemos enquadrar nas categorias do marxismo tradicional o que ocorreu na China após os anos sessenta,  poder-se-ia dizer que a Revolução Cultural  como forma específica de revolução política “permanente”,  foi sucedida por uma “Nova política Econômica”  (a NEP leninista),  de longo prazo, que tende a se tornar economia “permanente”. Assim como o sujeito político (Partido-Estado) cria o mercado e suas relações, estas relações novas recriam o sujeito (Partido-Estado), que será permanentemente outro. Como “outro”, mudado pela nova sociedade que ele produziu, é que vai reportar-se aos resultados obtidos, tanto para aumentar as conquistas dos trabalhadores no novo modelo, bem como para aumentar ou diminuir as rendas das classes ricas, que estão surgindo neste processo.

O próprio capitalismo, sem perder seu eixo e sua fúria, assim como o “modelo chinês”, vão esbarrar em situações-limite, nem sempre em função das suas contradições internas, mas muito fortemente em função dos limites da naturalidade (crise de fornecimento de energia fóssil, destruição ambiental ampliada, esgotamento do modelo produtivo agrícola predatório, esgotamento de recursos naturais não renováveis), cujos efeitos (“estufa” e outros) já são plenamente visíveis. Isso quer dizer que as amarras que impedem hoje as mudanças, no médio prazo, podem ser rompidas e assim será agregada à crítica do capitalismo, não só a crítica aos seus regimes brutais de violência e  exploração que ele semeou no mundo, mas também a possibilidade de liquidação, através dele,  da sobrevivência do gênero humano, o que atinge inclusive aquela parte da sociedade planetária  que  o capitalismo prometeu e deu uma vida melhor.

Para atuar de maneira produtiva neste novo ciclo de lutas, que já se abre com a “rearrumação” internacional, já em curso pela intervenção do modelo chinês, não podemos cair na tentação simplista e despolitizada apresentada, por exemplo, por Michael Löwy, aqui nesta Carta Maior: que só existem duas esquerdas na Europa, uma “oficial, institucional” e outra “radical”: o “sistema” e o “anti-sistema”.

Se é verdade que tal fórmula pode ter eco e dar prestígio em setores radicalizados da academia e entre uma pequena-burguesia com dramas existenciais, em função das crises atuais, promove, como diz Marilena Chauí uma posição “ingênua, que “ninguém leva à sério” e levanta uma barreira à construção de uma nova hegemonia, promovida pelos distintos pensamentos de esquerda, que se expressam numa sociedade civil extremamente complexa, tanto pela via eleitoral, como pelos movimentos sociais mais diversos. Uma sociedade que não mais  se move exclusivamente a  partir dos conflitos entre capital e trabalho, e nem mesmo somente a partir dos choques entre “incluídos” e “excluídos”, mas que expõe suas contradições agudas também em questões relacionadas como a sustentabilidade, as novas relações de família, os novos “modos de vida”,  a diversidade sexual, a expulsão dos imigrantes, a pobreza endêmica nas grandes periferias.

Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral. Não somente celebrando as conquistas que tivemos nestes doze anos, mas sobretudo redesenhando a utopia concreta, pois “o objetivo concretamente antecipado rege o caminho concreto” (Bloch). Isso significa apontar as reformas na política e na economia, necessárias não somente para acabar com a miséria absoluta, mas para antecipar um programa para atacar as brutais desigualdades de renda e de padrão de vida, anunciador de um socialismo democrático renovado.

Por enquanto, a “utopia concreta está presa com âncoras pesadas no fundo real da sociedade capitalista” (Altvater). O “levantar âncoras” poderá ser uma nova Assembléia Nacional Constituinte”, no bojo de um amplo movimento político -por dentro e por fora do Parlamento- inspirado pelas jornadas de  junho: com partidos à frente  sem aceitar a manipulação dos cronistas do neoliberalismo, abrigados na grande mídia. Para estes, as organizações políticas são um  estorvo, pois os seus partidos são as suas empresas. Se não mexermos no futuro, daqui para diante, o passado vai recobrar seu peso. E voltaremos aqui no Brasil a uma sociedade inteiramente regulada pelo FMI e pelas agências risco, cuja novidade, provavelmente,  será o velho “choque de gestão”.

(*) Governador do Rio Grande do Sul

VEJA QUEM DESCOBRE

RECORDAÇÕES
CULTURA JAPONESA – ACADEMIA DE JUDÔ – PROFESSOR SHODAN ISHIHARA
 
Ganha um doce quem descobrir o judoca faixa preta Luiz Salvador na equipe do Prof. Ishihara, nos idos de 1.965, na cidade de Assaí, próximo a Londrina, no Norte do Paraná, de onde se mudou para Curitiba para estudar Direito e Letras.
 
 

POBREZA & DESIGUALDADE: A superação da desigualdade no Brasil.

"A desigualdade segue sendo um problema muito grave no Brasil". Entrevista especial com Alexandre de Freitas Barbosa
“A superação da desigualdade no Brasil depende de um novo padrão de desenvolvimento”, diz o economista.
Confira a entrevista.
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“A desigualdade segue sendo um problema muito grave no Brasil”. Ela é “muito superior à de qualquer país desenvolvido” e, com exceção da África do Sul, é a maior “entre economias com o mercado interno dinâmico”, informa Alexandre de Freitas Barbosa à IHU On-Line. Coordenador da pesquisa “O Brasil real: A desigualdade para além dos indicadores”, encomendada pela organização europeia Christian Aid, e realizada por um conjunto de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise de Planejamento – Cebrap, o economista reconhece a efetividade das políticas públicas desenvolvidas pelo governo brasileiro nos últimos dez anos, mas adverte que o “fim da miséria é apenas o início. A próxima agenda é a do desenvolvimento com combate à desigualdade, e para isso a transferência de renda via Bolsa Família é insuficiente”. Para ele, slogans utilizados pela mídia e pelo governo, tais como “ascensão da nova classe média”, “país rico é país sem pobre”, “o Brasil vai virar uma potência desenvolvida”, acabam contribuindo para ofuscar a agenda do desenvolvimento da desigualdade.
Ao analisar os dados dos indicadores e confrontá-los com a realidade brasileira, Barbosa assinala que “a desigualdade caiu mais nas regiões ricas, nos estados de maior renda per capita, da região Sudeste e da região Sul”. Para ele, esses dados refletem a estrutura do mercado de trabalho e o aumento do salário mínimo. Já nas regiões Norte e Nordeste, a queda da desigualdade está atrelada aos programas de distribuição de renda. “Como nessas regiões os segmentos mais pobres não necessariamente recebem o salário mínimo e, sim, as transferências de renda num montante que, diríamos, é bem inferior àqueles que recebem um salário mínimo ou daquelas transferências corrigidas pelo salário mínimo (...), percebemos que nesses estados houve uma queda importante da pobreza. Refiro-me especificamente à pobreza medida pelo critério de renda, mas a queda da desigualdade não foi tão expressiva”, menciona na entrevista a seguir, concedida por e-mail.
Alexandre de Freitas Barbosa é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo – USP, e doutor em Economia Aplicada pela Unicamp. É professor e pesquisador de História Econômica do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB da USP e participa da Direção da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho – ABET.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Os indicadores demonstram redução da pobreza no país, aumento na renda, melhores condições de vida e aumento dos índices de emprego. Quais diferenças aponta entre os dados apresentados pelos indicadores e a realidade social brasileira?
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Alexandre de Freitas Barbosa – Os indicadores refletem uma das camadas da realidade, porque ela é mais complexa do que os indicadores apontam. Temos que olhar um conjunto de indicadores e saber o que cada indicador diz. Por isso, muitas vezes os economistas ou os cientistas sociais que trabalham com indicadores acabam mais atrapalhando do que ajudando nas análises, porque se fixam exclusivamente nos indicadores e nem tanto em uma interpretação que pode ser fornecida a partir deles.
Nesse estudo que realizamos, intitulado “O Brasil real: a desigualdade para além dos indicadores”, não deixamos de mostrar os indicadores, mas o esforço foi fazer uma interpretação para além dos indicadores, embasado naquilo que eles mostram.
Então, os indicadores demonstram, no período da primeira década do século XXI – os dados vão até 2009, porque ainda não tinha saído a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios – PNAD de 2011 –, as mesmas tendências que ocorreram ao longo da década. Ou seja, mostrou haver uma melhoria no mercado de trabalho, uma queda bastante pronunciada da pobreza e uma redução não tão pronunciada da desigualdade. Em primeiro lugar, nós temos de saudar essas mudanças não no sentido de comemorar, mas porque talvez tenha sido a primeira vez, na história do Brasil, em que se teve uma queda da pobreza junto com uma queda da desigualdade. Isso foi ancorado num processo de melhoria do mercado de trabalho, do emprego, da renda e de um importante movimento, no âmbito do governo, pressionado pelos movimentos sociais, de estabelecer um novo sistema de proteção social, do qual um dos eixos é o Bolsa Família.
IHU On-Line – Como as políticas sociais repercutiram no enfrentamento à pobreza e às desigualdades sociais nas diferentes regiões do Brasil?
Alexandre de Freitas Barbosa – Um dos problemas dos indicadores é que eles partem de uma média. No caso da desigualdade, ela geralmente é medida pelo coeficiente de Gini, o qual demonstra que houve uma queda da desigualdade brasileira. Na nossa pesquisa, tentamos mostrar até que ponto essa queda da desigualdade acontecia nas outras regiões do país e de que maneira isso ocorria. Percebemos algumas coisas que vão contra o senso comum. A primeira delas é que a desigualdade caiu mais nas regiões ricas, nos estados de maior renda per capita, nos estados da região Sudeste e da região Sul. Por que será que isso acontece? Uma das hipóteses é de que esse mercado de trabalho encontra-se mais estruturado e os mais pobres estão mais próximos do salário mínimo. Então, aumentar o salário mínimo, na verdade, ajuda a corrigir a renda dos segmentos mais pobres. E como o salário mínimo é o montante expressivo, e boa parte da renda das pessoas é a renda do trabalho, teve-se uma melhoria da desigualdade mais substantiva.
Geralmente, nos casos da região Norte e Nordeste, houve uma queda da desigualdade também, mas como nessas regiões os segmentos mais pobres não necessariamente recebem o salário mínimo e, sim, as transferências de renda num montante que, diríamos, é bem inferior àqueles que recebem um salário mínimo ou daquelas transferências corrigidas pelo salário mínimo, como a previdência rural e os benefícios de prestação continuada, percebemos que nesses estados houve uma queda importante da pobreza. Refiro-me especificamente à pobreza medida pelo critério de renda, mas a queda da desigualdade não foi tão expressiva.
No caso do Nordeste, há um mercado pouco estruturado, há um contingente que não está no mercado de trabalho e que atua tangenciando-o, em atividades informais ou como pequenos produtores rurais, muitas vezes sem acesso ao mercado. Então, a renda dessas pessoas não é corrigida pelo salário mínimo. Nesse caso, para se ter políticas mais estruturantes de combate à desigualdade, o salário mínimo não cumpre o papel decisivo, ainda que seja importante, e o programa Bolsa Família é insuficiente em termos de melhoria, de gerar um processo de mobilidade social.
IHU On-Line – Os programas de transferência de renda foram considerados um avanço, mas ainda não alteraram a desigualdade estrutural. Quais os limites desses programas e como avançar a partir deles?
Alexandre de Freitas Barbosa – Não estou dizendo que o Bolsa Família não seja importante. O próprio governo admite que junto, com este programa, precisa-se ter um conjunto de ações estruturantes em termos de distribuição de terras, de acesso ao crédito, de formação de cooperativas. Só que essas ações exigem muito mais tempo e organização do que as ações de transferência de renda.
Trabalhamos com alguns indicadores que apontam o diferencial de renda dos 10% mais ricos para os 10% mais pobres. Se você pega os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, vê que essa diferença, em 2003, era de 52 vezes, ou seja, os 10% mais ricos recebiam 52 vezes mais do que os 10% mais pobres. Esse percentual caiu para 40 vezes em 2009. Ou seja, em um período de seis anos se teve uma queda substantiva da desigualdade. Mas essa diferença de 40 vezes era a que o Brasil tinha, por exemplo, em 1970. Ela é muito superior à de que qualquer país desenvolvido e é, provavelmente, tirando a África do Sul, o maior nível de desigualdade entre economias com o mercado interno dinâmico. Então, a desigualdade segue sendo um problema muito grave no Brasil.
IHU On-Line – Quais devem ser os reflexos dessas políticas públicas nos próximos anos? Considerando um projeto de país, o que elas representam?
Alexandre de Freitas Barbosa – Isso é um pouco do que o estudo se pergunta, ou seja, se o mesmo conjunto de medidas adotadas até agora é suficiente para reduzir a desigualdade num ritmo mais forte no futuro. Nós temos dúvidas quanto a isso. Então, colocamos um conjunto de questões sobre a necessidade de um novo padrão de desenvolvimento, desenvolvendo setores de maior produtividade, uma maior participação na renda do trabalho, uma ampliação das políticas públicas de saúde, de educação, de moradia urbana, de mobilidade urbana.
Então, quando o governo utiliza o slogan de que “o combate à miséria é apenas o começo”, isso é verdade, mas o próximo desafio é a desigualdade. E, a partir da percepção de como vemos o debate no Brasil, não vemos essa questão da desigualdade emergindo no centro da agenda nacional. Há um setor produtivo que defende desonerações, defende o câmbio mais desvalorizado; tem o governo que cria o Brasil Sem Miséria dentro do programa Bolsa Família. Mas não há um conjunto de políticas que junte essas ações sociais voltadas para a transferência de renda para segmentos mais vulneráveis.
Na verdade, precisa-se de um novo padrão de desenvolvimento que permita atacar a questão da desigualdade nos vários territórios do Brasil, porque a desigualdade se apresenta de várias maneiras, dependendo se a pessoa está na região Sul ou Sudeste, ou na região Nordeste, ou em regiões metropolitanas como Recife e Porto Alegre. Ou seja, são vários padrões de desigualdade que convivem no mesmo país. Então, alguns slogans que têm sido utilizados pela mídia e pelo governo acabam contribuindo para ofuscar a agenda do desenvolvimento da desigualdade. Vou dar alguns exemplos: “Nova classe média”, “País rico é país sem pobre”, “O Brasil vai virar uma potência desenvolvida” etc. Se for uma potência desenvolvida, é uma potência desenvolvida com “pés de barro” porque, na verdade, teve-se um processo de mobilidade social acionado por transferências de renda e expansão de emprego – geralmente empregos com um salário mínimo – com pessoas que sofrem grandes distâncias para chegar ao seu trabalho, ocasião em que metade dos trabalhadores ainda não tem acesso à previdência social. Então, por mais importante que seja essa agenda, e o próprio governo parece que reconhece que o fim da miséria é apenas o início, a próxima agenda é a do desenvolvimento que visa combater a desigualdade. E para isso a transferência de renda via Bolsa Família é insuficiente.
IHU On-Line – O senhor destaca o aumento do salário mínimo como uma medida central para diminuir as desigualdades. Entretanto, considerando a atual estrutura do mercado de trabalho e o crescimento no setor de serviços, é possível continuar reduzindo a desigualdade ou corre-se o risco de manter baixos salários?
Alexandre de Freitas Barbosa – Quando se gera muito emprego, começa a aparecer o que algumas pessoas chamam “apagão de obra”; eu não gosto desse termo, na prática trata-se da escassez de trabalhos mais qualificados. Se você quiser esse novo padrão de desenvolvimento com o desenvolvimento de setores de maior produtividade, que adicionam o maior valor e por isso podem gerar melhores empregos, ele permite uma mobilidade social importante. Estou pensando justamente no processo de mobilidade social. Ou seja, num período de 20 anos, que estrutura social o Brasil vai ter? Uma estrutura social de uma classe média que vive da exploração do empregado doméstico sem carteira assinada, ou uma estrutura social que vive, digamos, de cargos bem remunerados, de técnicos profissionais, especialistas com curso superior nas áreas importantes de gestão das empresas e do setor público? De uma classe trabalhadora que possa acompanhar, com os seus salários, os ganhos de produtividade e de um setor que vai continuar existindo de trabalhadores vinculados à prestação de pequenos serviços, à pequena produção rural, que precisam se organizar em cooperativas de maneira a defender os seus rendimentos?
O que aconteceu no Brasil foi um processo de recuperação do poder de compra, o qual estava muito baixo para os salários de todo mundo, principalmente para o pessoal que está na base da pirâmide social. Agora, é preciso dar um passo para que alguns desses segmentos possam realmente se vincular a uma classe trabalhadora de salários médios, razoavelmente elevados em altos níveis de qualificação. Nos próximos 20 anos, temos de preparar essa transição.
Quando nós estamos falando de desenvolvimento relacionado à desigualdade, estamos falando apenas daqueles que vivem da renda do trabalho, o que é um problema. É como se pegasse um bolo no Brasil e, desse bolo, 40% ficasse com os salários, e dentro daqueles que vivem com os salários, ver-se a desigualdade. É a chamada distribuição de desigualdade pessoal da renda. E a desigualdade funcional, que é o lucro versus os salários?
Então, precisa-se aumentar a participação dos 40%, fazendo com que os segmentos de baixos salários subam mais rapidamente. Por isso esses terão uma cobertura via salário mínimo, e os segmentos de maior produtividade aumentarão a sua renda de acordo com os níveis de produtividade que podem crescer, inclusive acima do salário mínimo. Mas o mais importante é que a renda do trabalho passe a ter mais importância no conjunto da renda nacional.
Quer dizer que o capital vai perder? Não. Pode ser que a taxa de lucro do capital seja menor, mas a massa de lucros dele vai se ampliar, porque vão ter mais mercados etc. É possível até conseguir mercados fora do país, caso se aumente a produtividade, e ter produtos mais competitivos. Então, a política de sustentação e de valorização do salário mínimo é um dos elementos. Ela foi talvez um dos eixos desse processo de redução da desigualdade de renda. Porém, se acoplar a um conjunto de outras políticas.

Danos morais: Empregador não pode exigir revista íntima em emprergados.

Danos morais

Empregador não pode exigir revista íntima em empregados

O empregador não pode obrigar que os empregados passem por revista íntima, conforme previsto no artigo 273-A, inciso VI, da CLT. Por isso é que o Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região, no Ceará, considerou que um patrão abusou de seus direitos quando mandou uma funcionária fazer revista íntima em suas colegas por causa do sumiço de R$ 10 mil.
Com esse entendimento, o tribunal condenou a transportadora de valores Prosseguir Brasil a indenizar a vigia em R$ 3 mil por danos morais. Os desembargadores acolheram parcialmente Recurso Ordinário da empresa, reduzindo a condenação que, de acordo com sentença de primeira instância, foi definida em R$ 15 mil.
A funcionária disse que, após o desaparecimento dos valores, os empregados foram mandados para uma sala reservada e obrigados a se despir diante dela e de outros colegas, chacoalhando as roupas para que ficasse constatada a inocência de cada um. A alegação de assédio moral foi rebatida pela Prosseguir com base na argumentação de que as testemunhas que comprovavam o fato são suspeitas, pois movem ações trabalhistas semelhantes. A defesa apontou ainda que os atos não foram comprovados e que o funcionário responsável por tal ordem foi demitido assim que a informação chegou ao conhecimento da diretoria.
Relator do caso, o desembargador Francisco Tarcísio Lima Verde Júnior afirmou que não é relevante a autoria da ordem para a revista íntima. Segundo ele, a empresa determinou a prática, sendo irrelevante que a determinação tenha partido de um superior da mulher, uma vez que a empresa confiou poderes ao homem, o que a impede de se eximir da responsabilidade. O relator disse que a ação incentivada pelo funcionário é “exercício descomedido do poder fiscalizatório do empregador, tanto para a empregada revistada, quanto para a empregada obrigada a revistar suas colegas de trabalho, invadindo a intimidade e a dignidade do trabalhador”.
Ele citou precedentes do Tribunal Superior do Trabalho e do TRT da 3ª Região sobre o dano moral decorrente de revista íntima, e informou que as testemunhas da funcionária comprovaram a prática, enquanto “a própria empresa, através de seu preposto, em depoimento pessoal, revela-se um tanto confusa e contraditória”, primeiro atribuindo a ordem ao funcionário demitido e, na sequência, à própria autora da ação.
Francisco Tarcísio Júnior acolheu, porém, o pedido de revisão do valor da indenização, por entender que a fixação em R$ 15 mil superou o que seria correto para o caso em questão. Tomando como base o fato de a funcionária ter se beneficiado da assistência judiciária gratuita e de seu salário, à época da atuação profissional, ser inferior a R$ 700, ele reduziu o valor pago por danos morais a R$ 3 mil. O voto do relator foi acompanhado pelos demais membros da 1ª Turma do tribunal. Com informações da Assessoria de Imprensa do TRT-7.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA & É O SISTEMA POLÍTICO-ELEITORAL.

Julgamento ameaça planos do PMDB mineiro
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PAULO PEIXOTO
DE BELO HORIZONTE
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O julgamento do mensalão tucano em 2014 no Supremo Tribunal Federal poderá atrapalhar os planos do PMDB de lançar o senador Clésio Andrade, um dos réus no processo, na disputa pelo governo de Minas Gerais.
Se ocorrer no primeiro semestre, antes das convenções partidárias de junho, haverá risco de o julgamento prejudicar as articulações do senador para se consolidar como candidato à sucessão de Antonio Anastasia (PSDB).
Se Clésio conseguir viabilizar sua candidatura e o julgamento ficar para o segundo semestre, ele estará em campanha eleitoral quando seu destino estiver sendo discutido pelo Supremo.
O presidente do PMDB-MG, deputado federal Saraiva Felipe, reconheceu que o julgamento em ano eleitoral pode ser um "acidente de percurso". Disse que a sigla "tem alternativas", mas não as citou.
Interessados no apoio do PMDB a seus candidatos, petistas e tucanos acreditam que o desgaste com o julgamento é capaz de convencer Clésio a desistir da disputa. O senador descarta a possibilidade. Em encontros com petistas, disse achar possível que o processo do mensalão tucano não avance.

Marcelo Camargo - 24.dez.2013/Folhapress

O senador mineiro Clésio Andrade, em visita ao ministério dos Transportes
O senador mineiro Clésio Andrade, em visita ao ministério dos Transportes
A Procuradoria-Geral da República acusa os tucanos de desviar R$ 3,5 milhões de empresas públicas de Minas Gerais para financiar a campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo (PSDB) em 1998. Azeredo, hoje deputado federal, perdeu a eleição e é um dos réus do processo no STF.
O esquema é apontado como embrião do mensalão do PT, por causa da participação do publicitário Marcos Valério de Souza, dono de agências que tinham contratos com o governo mineiro e depois ajudaram a distribuir o dinheiro do mensalão do PT.
Clésio Andrade foi sócio de Valério em uma agência e vice de Azeredo na eleição de 1998. Ele e Azeredo negam as irregularidades. Valério está preso desde novembro. Empresário e presidente da Confederação Nacional dos Transportes, Clésio não quis comentar o assunto.
Se ele desistir da disputa eleitoral, o PMDB terá como opção o empresário Josué Gomes da Silva, recém-filiado ao partido e filho do vice-presidente José Alencar (1931-2011).
Mas a tese da aliança com o PT também se fortaleceria. O ministro da Agricultura, Antonio Andrade, sonha em ser vice na provável chapa do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel (PT), líder das pesquisas.

MPT ELETRONICO: Obra na Arena da Amazonia e liberada

TRAGEDIA NA OBRA DA ARENA DA AMAZONIA
Operario Marcleudo de Melo Ferreira despenca de altura de 35 metros de altura, na madrugada de sábado, dia 14.12.2013. Das 64 medidas de segurança exigida, 63 delas não foram cumpridas.
E ainda chamam isso de acidente de trabalho. Em nosso entendimento fatalidades como essas não podem ser tidas como de acidente de trabalho. Posto que acidente de trabalho Acidente do trabalho é um acontecimento imprevisível em que o empregador tenha investido em prevenção, cumprindo todas as normas de nao pode ser as ocorrencias previsiveis. Posto que sabido que para ser reconhecido como “ Acidente do trabalho”  ha que ser um acontecimento imprevisível em que o empregador tenha investido em prevenção, cumprindo todas as normas de segurança e saúde prevista na legislação de proteção à mantença da higidez física e psíquica de seus empregados e mesmo assim o infortúnio venha a ocorrer. Mas o que está acontecendo no Brasil é um crime com dolo eventual, porque ainda que a tragédia não esteja sendo desejada, a omissão e a ganância pelo lucro a qualquer custo prevaleça sobre o dever de assegurar saúde a todo seu trabalhador. Daí que estamos defendendo a aprovação no Brasil de um direito penal trabalhista, a exemplo do que já é lei vigente na espanha, criminalizando-se o mau empregador que descumpre a legislação de proteção à integridade física e psíquica de seu trabalhador, em ocorrendo o infortúnio laboral. DIREITO PENAL TRABALHISTA. A não eliminação dos riscos acidentários implica em verdadeiro crime cometido contra os trabalhadores. Link: http://www.alal.com.br/materia.asp?cod_noticia=6038
 
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SEM FISCALIZAÇÃO & DESCUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO INFORTUNISTÍCA

Justiça libera obras da Arena Amazônia, mas veta trabalho noturno na cobertura
DE MANAUS
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A Justiça do Trabalho do Amazonas liberou, na tarde desta quarta-feira, as obras em altura da Arena Amazônia, embargadas desde o último fim de semana, quando um operário caiu da cobertura e morreu. No entanto, os trabalhos que envolvem a cobertura não poderão mais ser feitos sem luz natural.
A decisão ocorre após acordo entre a construtora e os procuradores do trabalho, que terminaram nesta quarta-feira a perícia judicial realizada no local.
Segundo o TRT (Tribunal Regional do Trabalho), a vistoria constatou que a construtora adotou as providências necessárias nos setores da obra que envolvem trabalho em altura.
"Pelo novo acordo, a Andrade Gutierrez terá mais obrigações a cumprir, estando sujeita às penalidades estendidas a estas novas obrigações", diz nota do TRT.
Segundo a UGP (Unidade Gestora do Projeto Copa), ligada ao Estado, um novo cronograma será discutido com a Andrade Gutierrez. O último prazo estipulado era a segunda quinzena de janeiro, mas ele deve ser prorrogado.
Segundo o Estado, a arena precisa ficar pronta até abril, data limite estipulada pela Fifa.
Arena da Amazônia
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Bruno Kelly/Reuters
Trabalhador observa construção da Arena da Amazônia, em Manaus
Na madrugada de sábado, um operário de 22 anos morreu após cair de uma altura de 35 metros enquanto trabalhava na fixação da cobertura do estádio. Em março, um funcionário de 49 anos morreu também em decorrência de queda durante o trabalho.
A Arena Amazônia terá capacidade para 43 mil pessoas e receberá quatro partidas do Mundial, como Inglaterra x Itália e Portugal x EUA.
O novo estádio está 93,31% concluído e tem custo estimado de R$ 605 milhões.