Beto Soares | Estúdio Boom
Data: 17/01/2014 / Fonte: Sinait
A
entrevista é de novembro do ano passado, mas o assunto continua atual. O
sociólogo Elísio Estanque, português, no Brasil desde janeiro de 2013,
como professor visitante da Unicamp, respondeu perguntas da jornalista
Mônica Manir, de O Estado de São Paulo, sobre a situação dos
trabalhadores no mundo, de forma geral, nestes tempos de crise.
Para
Estanque, o mundo do trabalho vive uma barbárie que vai além do
desemprego para desembocar num individualismo negativo, sem direitos
sociais básicos. Dentro dessa barbárie estão situações que o Sinait
noticia diariamente, verificadas pelos Auditores-Fiscais do Trabalho, e
que vão parar na Justiça do Trabalho, principalmente por se encaixarem
no desrespeito aos direitos trabalhistas. Mas é mais do que isso: a
exploração e a competitividade exacerbadas levam à exaustão, à falta de
lazer, ao acúmulo de atividades e jornadas prolongadas.
Embora o
sociólogo não use a expressão "trabalho escravo", várias das
características da exploração citadas por ele estão presentes nas
situações encontradas pelos Grupos Móveis de Fiscalização. A pressão por
produtividade levou vários cortadores de cana a mortes súbitas nos
últimos anos que, mesmo que não tenham comprovação, são suspeitas de
terem como causa a exaustão por excesso de trabalho. Acidentes de
trabalho acontecem por falta de observância das regras de segurança
exigidas em leis.
Rosa Jorge, presidente do Sinait, observa que
muitos fatores contribuem para o quadro atual do mundo do trabalho,
preocupante, que nega a qualidade de vida aos trabalhadores. A
fiscalização insuficiente, por absoluta incapacidade de alcançar todas
as empresas e ambientes de trabalho, é uma delas. "O número de
Auditores-Fiscais do Trabalho minguou ao mesmo tempo em que o mercado de
trabalho se aqueceu e cresceu junto com a economia. Não há como
acompanhar ou manter o mesmo patamar de alguns anos", diz ela.
As
metas impostas para a fiscalização, entretanto, crescem a cada ano, sem
a contrapartida do crescimento do número de Auditores-Fiscais. E têm
sido cumpridas. Para Rosa Jorge, isso tem custo. "Nós também estamos
sendo vítimas desse processo de individualização e competitividade.
Estamos acumulando atividades para alcançar as metas, adoecendo, nos
afastando do trabalho, muitos se aposentam ainda jovens. É realmente uma
situação preocupante".
Leia, abaixo, a entrevista de Elísio Estanque.
21-12-2013 - O Estado de São Paulo
Menos-valia - Sociólogo vê `regressão à barbárieÂ’ e analisa o acúmulo de funções, a falta de segurança e a ausência de lazer
Elísio
Estanque não vai estar dando respostas prontas nesta entrevista. Vindo
do Alentejo, ele obviamente não prima pelos gerúndios característicos do
infoproletariado, a massa de trabalhadores dos call centers. Mas a
questão é mais que gramatical. Esse sociólogo de 61 anos se diz contra
seguidismos e alinhamentos cegos. Tem estilo próprio. E vai direto ao
ponto: "O que vemos nas duas últimas décadas é uma regressão à autêntica
barbárie no mundo do trabalho".
Professor da Universidade de
Coimbra, Elísio sentiu a feia crise em seu país. No entanto, quando fala
de barbárie, não trata apenas do desemprego brutal entre os jovens
portugueses. Quer discutir por que trabalhadores em geral - e não só os
infoproletários - se distanciaram dos sindicatos e se trancafiaram num
"individualismo negativo", sem direitos sociais básicos. "Ninguém
imaginava que, mesmo nas democracias avançadas, iriam surgir fenômenos
de degradação humana nesse nível", afirma.
Ele fala de acúmulo de
funções, de falta de segurança, de alta rotatividade, de vigilância
escamoteada, de ausência de lazer, de exaustão. Opina sobre o paradigma
desenvolvimentista do Brasil, onde a taxa de desemprego de novembro,
4,6%, é mínima histórica. Também tem interesse em comparar a classe
média portuguesa com a nossa "nova classe média", de que ele desconfia, e
faz isso tudo a partir de Campinas, onde está desde janeiro como
professor visitante da Unicamp, em companhia da mulher ucraniana.
Causou
surpresa, na semana passada, o caso da redatora de uma agência de
publicidade da Indonésia que morreu após trabalhar três dias seguidos em
frente do computador. O pai dela, diretor executivo de outra agência,
disse que a filha passara de seu limite. Como medir esse limite em
tempos de infoproletariado? Ao tomar esse evento apenas como
ilustração de muitos milhares de outros que têm acontecido nos últimos
tempos, eu diria que essa pressão que faz com que o trabalhador seja
levado pra lá do suportável das capacidades humanas depende de um clima
geral que está a exaurir a classe. Esse clima tem despojado o
trabalhador daquilo que são - ou que foram - alguns direitos de
segurança, de inserção social e de recompensas materiais e salariais.
Nas últimas duas décadas houve uma inversão na lógica do funcionamento
da economia. O mercantilismo se reforçou e está a individualizar mais as
relações de trabalho. As pessoas ficam sob um controle ainda maior na
medição dos indicadores da produtividade, dependente de serem ou não
capazes de alcançar objetivos muitas vezes insuperáveis. Portanto, nesse
caso da Indonésia e também em muitos acidentes de trabalho em que
questões de segurança são descuradas, tudo representa uma
vulnerabilidade muitíssimo grande do trabalhador. E isso acontece tanto
em segmentos mais qualificados e de ensino superior como naqueles de
menor qualificação e trabalho indiferenciado. Temos na construção civil,
por exemplo, vários exemplos de risco que levam os trabalhadores a
sofrer acidentes físicos, inclusive.
Nessa semana, aliás,
ocorreu a morte de um operário na Arena Amazônia motivada, diz o
sindicato da categoria, pela correria dos trabalhadores para entregar o
estádio no prazo. Há na história momento semelhante de tamanha
vulnerabilidade do trabalhador? Nos anos 1990, Ulrich Beck,
alemão que estuda essas temáticas, falava da brasileirização do mundo.
Pensava na enorme precarização da força de trabalho na qual não há
praticamente direitos, e sim uma enorme rotatividade e instabilidade. Só
que, na Europa, não se esperava que ela fosse tão brusca, tensa e
violenta. É um individualismo negativo que faz lembrar aquele que
existia antes da Revolução Francesa, antes de a sociedade industrial
moderna estar consolidada. Era o trabalhador colocado como força bruta,
como mercadoria, totalmente dependente daquilo que fosse do interesse
das entidades empregadoras. O que assistimos nas últimas duas décadas é
uma espécie de regressão a esse período de autêntica barbárie. E isso é
vivido, no caso dos trabalhadores da Europa, depois de eles terem
passado por três décadas da chamada época de ouro do Estado previdente,
quando a conquista de direitos repunha o trabalho num estatuto de
reconhecimento social. Há sete, oito anos, ninguém imaginava que, mesmo
nas democracias mais avançadas, surgiriam fenômenos e situações de
tamanha degradação humana.
Isso, de alguma forma, tem a ver com a inovação tecnológica? A
inovação tecnológica tem sempre duas faces: a brilhante e a obscura. Há
muito se vinha discutindo que, com a tecnologia, o trabalhador ficaria
mais liberto do componente mais duro do trabalho, podendo usufruir de
mais tempo livre. Mas a inovação tecnológica não tem acarretado consigo
mais liberdade, mais autonomia, mais emancipação. Ao contrário: permite
uma vigilância mais apertada. Ela cria uma precariedade que não é apenas
objetiva e material, mas também psicológica, o que leva o trabalhador a
recriar os instrumentos da própria vulnerabilidade.
Como isso acontece? O
trabalhador é colocado numa situação vulnerável não apenas porque sabe
que pode ser deslocado de um momento para outro ou ser facilmente
demitido, mas também porque incorpora a ideia de que é preferível
aceitar qualquer que seja a condição de trabalho a não ter nenhum. Daí
que concorda em ser colocado numa posição de maior dependência. E aceita
de certo modo ser explorado até a exaustão, como naquela situação à
qual nos referimos no início. Isso acontece na relação assimétrica de
poder que ele mantém com a entidade patronal, uma entidade que muitas
vezes nem conhece pessoalmente.
O acúmulo de funções seria uma faceta dessa exploração? Isso
se insere no paradigma das empresas enxutas, retórica enfocada a partir
dos anos 1980 com o chamado Consenso de Washington, que levou a uma
globalização maior dos mercados. Isso intensificou imensos fluxos do
capitalismo financeiro e colocou o capitalismo produtivo a sua mercê. Na
prática, isso se traduziu na tentativa de espremer ao máximo o
trabalhador que fica na empresa, fez com que a polivalência deixasse de
ser sinônimo de maior autonomia e margem de opção do trabalhador para
torná-lo mais dependente de uma competitividade castigante. Dentro das
empresas também há uma condição muito estimulada entre os trabalhadores,
os prêmios de produtividade, que muitas vezes são ilusão. Se olharmos
de um lado a multiplicação do lucro da atividade financeira e de outro
os salários, há uma distância que se foi elevando nas últimas décadas em
todos os países, a começar pelos EUA. Resumindo, essa multiplicidade de
competências aconteceu por imposição de cima para baixo. A margem de
negociação foi desaparecendo porque o próprio campo sindical deixou de
negociar as condições de trabalho, entre elas também as horas extras.
No caso das horas extras, seria o momento de resgatar o cartão de ponto? O
cartão de ponto nos remete aos setores mais burocráticos, aos setores
dos servidores públicos, nos quais, apesar de tudo, ainda existe alguma
previsibilidade. A pessoa sabe que, quando deixar o local de trabalho,
estará livre. Mas me parece que essas situações sejam cada vez mais
excepcionais porque os servidores públicos - pelo menos na Europa, no
Brasil ainda é diferente -, estão sendo igualmente descartados, enquanto
os recursos públicos seguem muitas vezes a lógica do privatismo. Eu
diria que o cartão de ponto, neste momento, está no bolso de todo mundo.
Está no celular, no computador, nos imensos meios técnicos que as
empresas possuem para controlar o que cada um está a fazer a cada
momento.
Como esse trabalhador pode reagir? Desde que o
capitalismo moderno se consolidou surgiram conflitos, como o movimento
ludista, em que os trabalhadores destruíram as máquinas por temer que
elas viessem a substituí-los no emprego. Mas eles logo aprenderam que,
sozinhos e isolados, não conseguiriam resistir de modo nenhum. A
resposta tinha de ser coletiva, por força do movimento sindical, que nos
países mais avançados foi sendo institucionalizado e trouxe imensas
conquistas para as condições de vida. Mas hoje, num salto histórico para
este momento de regressão, os sindicatos estão a ser o principal alvo
da força do grande capital internacional. Houve uma viragem de paradigma
nas últimas duas ou três décadas. Os sindicatos temem ser agressivos,
estão muito enfraquecidos. Em parte porque, seja no infoproletariado ou
em outros vínculos laborais, as empresas e o trabalho tendem a ser
terceirizados. Note-se por exemplo que, aqui no Brasil, cerca de 1/3 da
força de trabalho é terceirizada. Em Portugal, mais de 30% dos
trabalhadores estão com contrato a termo certo, ou seja, estão em
situação de precariedade. As novas gerações de força de trabalho vão
entrando no mercado em condição particularmente precária e dependente,
individualizada e com medo.
Esse jovem não procura o sindicato? Apesar
de muitas vezes esse jovem ser sobrequalificado, pelo menos na Europa,
já que o desemprego atinge mais aqueles que passaram pela universidade,
ele não procura os sindicatos. E por duas razões: uma é a pressão que
existe dentro das instituições do mercado de trabalho quanto a isso;
outra é o déficit de confiança que as novas gerações têm rotineiramente
em relação ao sindicalismo. Ou seja, o próprio sindicalismo também não
soube renovar-se e adaptar-se para responder de modo mais eficaz a esses
problemas.
Portugal anunciou que gastará € 300 milhões para combater o desemprego jovem. Isso é suficiente? Esse
valor é, com certeza, insuficiente para programas de incentivo ao
emprego de jovens que, na faixa abaixo dos 30 anos, ultrapassam os 40%
de desempregados em Portugal. Na Espanha, são 50%. É insuficiente
sobretudo se não for acompanhado de outras políticas de incentivo à
recuperação da economia, o que só pode acontecer se houver, de novo, um
investimento e uma alavancagem por parte do poder público e da
intervenção estatal. Porque, desastrosamente, esse paradigma neoliberal
parte do princípio de que tudo que é privado é eficaz e tudo que é
público é custoso. Se a economia não crescer, se não houver mais oferta
de emprego e trabalho assalariado, é obvio que esses jovens continuarão a
sentir-se sem futuro, em busca de qualquer saída. No caso de Portugal, a
saída tem sido migrar para a Alemanha, Holanda, Luxemburgo e França, ou
mesmo para o Brasil.
O desemprego no Brasil caiu para 4,6% em novembro, mínima histórica antes do fim do ano. O senhor vê esse cenário com otimismo? O
que tem acontecido no Brasil é um crescimento econômico muito
significativo e uma melhoria notória nas condições de trabalho, porém
justamente porque a base de partida era extremamente degradante e
miserável para muitos setores. E, ainda hoje, apesar das melhoras em
termos de formalização do emprego em relação há 15 anos, repara-se nos
altíssimos porcentuais de rotatividade. Minha leitura vale para todas as
sociedades: quando se avança segundo uma orientação progressista e
emancipatória de maior coesão social, maior dignidade para as classes
trabalhadoras, maior acesso à saúde, à educação, à cultura, ao descanso
da mente, aí estaremos a caminhar no bom sentido. Se o paradigma
desenvolvimentista do Brasil sair triunfante dessa encruzilhada em que
nos encontramos, é possível que a classe trabalhadora, nas próximas
décadas, vá se beneficiar disso. Mas neste momento há uma grande
incerteza nesse sentido. Os poderes do capitalismo global são realmente
esmagadores.
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