terça-feira, 21 de janeiro de 2014

GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA & CONCENTRAÇÃO DE RENDAS, 1% da humanidade controla 50% do PIB mundial.

 
Jamil Chade
 
Direito Humanos
20.janeiro.2014 07:10:09
1% da humanidade controla 50% do PIB mundial
GENEBRA – Metade da riqueza do mundo está nas mãos de apenas 1% da população mundial. Dados divulgados hoje pela ong Oxfam revelam o tamanho da disparidade social no planeta e num processo que ganhou força desde 2008, quando a crise mundial afetou em especial as classes médias.
A desigualdade social é considerada como tão profunda hoje que começa a assustar até os organizadores do Fórum Econômico Mundial de Davos, considerados como os arautos do capitalismo. Um informe preparado pela entidade que nesta quarta-feira começa seu encontro na estação de esqui na Suíça revela que as disparidades sociais são riscos reais para a estabilidade internacional. Entre os riscos para o mundo, Davos aponta que a disparidade é o maior deles.
Mas é o estudo da Oxfam que traz os dados mais reveladores. 85 fortunas mundiais acumulam a mesma riqueza que 3,5 bilhões de pessoas. Ou seja, metade da humanidade. Na prática, 1% das pessoas controlam 50% do PIB do planeta. O documentos será apresentado aos magnatas do mundo em Davos, muitos dos quais são até hoje apontados como os responsáveis por ter incentivado um cenário de irresponsabilidade financeira.
Desta vez, serão confrontados com números claros. Nos EUA, 95% do crescimento gerado após a crise de 2008 ficou nas mãos de 1% da população.
Na Europa, as dez pessoas mais ricas do Velho Continente mantém fortunas equivalentes a todos os pacotes de resgate dados aos países da região entre 2008 e 2010, cerca de 200 bilhões de euros
 
 
 
Grupo dos 85 mais ricos do mundo tem riqueza igual à dos 3,5 bilhões mais pobres
  • Segundo Oxfam International, bilionários acumulam fortuna de US$ 1,7 trilhão. Às vésperas do Fórum Econômico, entidade alerta para luta contra desigualdade
O Globo (Email)
Publicado:20/01/14 - 21h58
Atualizado:20/01/14 - 22h11
RIO - O pequeno grupo das 85 pessoas mais ricas do mundo concentra a mesma riqueza que os 3,5 bilhões mais pobre do planeta, revelou nesta segunda-feira uma pesquisa da organização Oxfam International. O estudo foi divulgado às vésperas do Fórum Econômico Mundial e tem como objetivo estimular o debate sobre a desigualdade social no encontro, que ocorre a partir de quarta-feira em Davos, na Suíça.
De acordo com o relatório, o grupo de super-ricos acumula fortuna de US$ 1,7 trilhão. A entidade afirma ainda que 1% da população mundial detém quase metade da riqueza mundial: US$ 110 trilhões.
Para a Oxfam, dedicada ao combate à pobreza, o alto nível de desigualdade está relacionado à concentração de poder, que garante mais oportunidades aos mais favorecidos. A entidade cita pesquisas realizadas em seis países, inclusive o Brasil, que mostram que a maioria das pessoas acredita que as leis são distorcidas em favor dos mais ricos. Segundo o estudo, paraísos fiscais, práticas anticompetitivas e baixo investimento em serviços públicos estão entre os fatores que dificultaram uma melhor distribuição de oportunidades.
“Esta captura de oportunidades pelos ricos às custas dos pobres e da classe média ajudou a criar uma situação onde sete de dez pessoas no mundo vivem em países onde a desigualdade aumentou desde os anos 80”, afirmou a Oxfam.
Para o diretor da organização, Winnie Byanyima, que estará em Davos, a luta contra a pobreza está relacionada ao combate à desigualdade.
- O aumento da desigualdade está criando um círculo vicioso onde riqueza e poder estão cada vez mais concentrados nas mãos de poucos, deixando o resto de nós lutando por migalhas que caem da mesa - afirmou Byayima.
 

AMIANTO MATA: Minas Gerais edita lei que bane uso do amianto no Estado.

Fibra mineral

Minas Gerais edita lei que bane uso do amianto no estado

 

Minas Gerais tornou-se, em 30 de dezembro de 2013, o sexto estado brasileiro a proibir o uso do amianto. Sancionada pelo governador Antonio Anastasia, a Lei 21.114 proíbe a importação, transporte, armazenamento, industrialização, comercialização e uso de produtos que contenham amianto, asbesto ou minerais cuja composição inclua a fibra mineral. O estado se une a São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Mato Grosso e aos 31 municípios que possuem legislação específica sobre o assunto. As informações são do Jornal da Manhã.
De acordo com o artigo 2º da lei, o cumprimento da medida observará os prazos de oito anos, no caso da importação e transporte, de oito anos e seis meses para industrialização, venda e armazenamento pela indústria, de nove anos para a venda no comércio e de dez anos para o uso. Durante tais prazos, como prevê o artigo 3º, as empresas mineiras que fabricam amianto devem medir a concentração de poeira de amianto em suspensão no ar nos locais de produção.
Nos casos em que a concentração for superior a 0,10 f/cm3 (fibra por centímetro cúbico), a produção deve ser interrompida. Além disso, cabe ao setor promover “campanhas semestrais de qualificação e de divulgação ampla sobre os riscos e a forma correta da utilização dos produtos que contenham amianto, asbesto ou minerais que contenham amianto ou asbesto”, segundo o inciso III do artigo 3º. Em caso de descumprimento, os responsáveis serão enquadrados no artigo 10, inciso XXIX, da Lei 6.437/77, com pena variando entre advertência, inutilização do produto, suspensão de venda e/ou fabricação, cancelamento do registro do produto e até a interdição parcial ou total do estabelecimento.
Leia no anexo a íntegra da Lei 21.114/2013.

DEVAGAR COM O ANDOR: PJe pode trazer prejuízos à advocacia e ao jurisdicionados.

Procura-se solução

PJe pode trazer prejuízos à advocacia e aos jurisdicionados

 
No último dia 15 de janeiro a advocacia de todo o país viveu outra situação de caos absoluto no Processo Judicial Eletrônico (PJe), novamente causada por problemas técnicos.
Quando um advogado não consegue acessar o sistema informatizado, tornado obrigatório pelo Poder Judiciário para o peticionamento, sua única opção é ‘correr’ para a OAB. Mas, assim como o advogado, a OAB também é surpreendida: todos os equipamentos colocados à disposição dos advogados nas centrais de peticionamento não acessam o sistema.
Descobriu-se, então, que uma nova atualização de segurança do Java bloqueou o acesso ao sistema PJe, assim como ocorreu em passado muito próximo. De nada adiantou a OAB buscar ajuda junto ao Poder Judiciário, pois, inexplicavelmente, não sabia o que estava ocorrendo e muito menos informou a solução.
Devido à absoluta omissão do Poder Judiciário, transferiu-se para a OAB a responsabilidade de solucionar um problema de grande magnitude e que não deu causa. Acionado o “botão do pânico”, a OAB rapidamente encontrou a forma técnica para desbloqueio do sistema, que, apesar de não ser a ideal, foi a que possibilitou aos advogados o cumprimento de seus prazos.
A OAB, então, passou a prestar atendimento a centenas de advogados para explicar os procedimentos técnicos necessários para retorno do acesso ao sistema. Aliás, procedimento nada simples para um usuário comum: ‘Necessário atualizar o plugin do Java, pois o navegador Firefox não identifica automaticamente. Siga esse passo-a-passo: Vá ao menu iniciar, painel de segurança, Java, painel de controle, nível de segurança, ajuste para o nível médio’. Cabe aqui o parêntese: o presente alerta não tem a pretensão de analisar as questões técnicas que deram origem a esse novo imbróglio do PJe. E nem se alegue que o problema não foi do PJe, pois, se para o sistema funcionar corretamente depende de aplicações de terceiros, é, sim, um problema do PJe.
Nesse carrossel de emoções negativas, mais estarrecedor do que a ocorrência de um novo entrave técnico do PJe foi a postura do Poder Judiciário — nem pró-ativa nem reativa — em relação a esse último apagão. Até agora nenhuma nota oficial, nenhum esclarecimento, absolutamente como se nada tivesse acontecido!
Constata-se, portanto, uma triste realidade: os advogados usuários do sistema PJe estão abandonados pelo único responsável pela administração do sistema. O Conselho Nacional de Justiça não assume sua responsabilidade de gestão segura do sistema, não se importa em gerir crises e tampouco dar resposta a incidentes. Os Tribunais Regionais do Trabalho, que por sua vez dependem das instruções do administrador do sistema, também nada puderam informar em seus sites.
A dimensão dos graves prejuízos aos jurisdicionados pode ser medida pelo volume processual que tramita no sistema PJe: mais de 1 milhão de ações! Somente a Justiça Trabalhista opera com cerca de 900 mil processos, distribuídos em mais de 900 varas. E o Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro possui 111 varas instaladas, tendo recebido, somente no período de recesso forense, 20.096 novas ações.
Neste momento, a OAB enfrenta a saga ‘2’: conseguir a devolução de prazos dos advogados prejudicados com a falha do sistema. Registre-se, sempre, que a advocacia jamais foi contra o processo judicial informatizado. Mas é imperioso que o sistema seja confiável, de fácil manuseio e tenha sustentabilidade. O advogado não é analista de sistema e tampouco técnico em informática. Trata-se de um usuário comum que não precisa deter conhecimentos técnicos acima da média para conseguir exercer seu ofício. Não é mais tolerável que a tecnologia continue sendo um fator excludente do acesso à Justiça!
A Ordem dos Advogados do Brasil tem se esforçado ao máximo para que esse processo de migração para o processo eletrônico não seja desumano ao advogado e importe em exclusão profissional. Como visto, o sistema PJe — agora de uso obrigatório como modelo nacional único por determinação do CNJ — ainda poderá trazer grandes prejuízos à advocacia e, consequentemente, aos jurisdicionados.
Não se procuram culpados. Procura-se solução!
Haja fé!
Ana Amelia Menna Barreto é advogada e diretora de Inclusão Digital da OAB-RJ.
Revista Consultor Jurídico, 18 de janeiro de 2014
 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Livro discute exploração de trabalhadores por empresas e Estados são lenientes na defesa de seus cidadão

Livro discute exploração de trabalhadores por empresas
Para autor, Estado é responsável por coibir violações de direitos humanos.
 
 
O sistema leva ao fortalecimento de grupos paramilitares que torturam e até matam lideranças sindicais que se insurgem contra as empresas que, sem responsabilidade social, descumprem o dever social por assegurar a empregabilidade digna e de qualidade.
 
O livro aponta a ação de empresas em casos de violência, assédio sexual, abuso de trabalhadoras, trabalho infantil, emprego de seguranças ligados a grupos paramilitares acusados de torturar e até matar lideranças de trabalhadores. Relata como Estados são lenientes na defesa de seus cidadãos --ou temem perder investimentos de multinacionais e/ou são fracos e corruptos.
 
Leia mais.
 
Livro discute exploração de trabalhadores por empresas
Para autor, Estado é responsável por coibir violações de direitos humanos
ELEONORA DE LUCENA DE SÃO PAULO
"O produto da Nike se tornou sinônimo de renda escrava, sobretrabalho forçado e abuso arbitrário. Acredito verdadeiramente que o consumidor americano não quer comprar produtos feitos em condições abusivas."
As palavras são do fundador da Nike, em 1998. Naquele ano, a empresa enfrentava protestos e boicotes, e suas ações despencavam. A foto de um garoto paquistanês de 12 anos costurando uma bola de futebol da marca escancarou a produção degradante. A alegação de que a companhia não era responsável pelas péssimas condições de trabalho de seus fornecedores não fora suficiente para aplacar a ira de compradores, trabalhadores e investidores.
A empresa foi a primeira norte-americana a ter sua produção inteiramente no exterior. Na esteira da desregulamentação financeira e das privatizações, os capitais migraram pelo mundo em busca de mão de obra e de recursos mais baratos --e de legislações e controles mais frouxos.
Nesse processo, ocorreram barbaridades. No mais mortífero desastre industrial da história, ocorrido em Bhopal, na Índia, em 1984, um megavazamento na fábrica de pesticida da Union Carbide matou milhares e deixou sequelas numa multidão que ainda reivindica auxílio e compensações.
Não é preciso voltar tanto no passado. Há pouco mais de três anos foram reveladas as condições degradantes do trabalho na Foxconn, na China, fabricante de ícones do consumo atual. iPads e iPhones da idolatrada Apple são feitos a partir de jornadas terríveis, crianças na linha de montagem, poluição, falhas de segurança, de saúde.
Aqui mesmo em São Paulo temos exemplos rotineiros de trabalho análogo à escravidão para marcas famosas na indústria têxtil.
Para avaliar essas situações e propor soluções globais, a ONU formou um grupo de trabalho em 2005. Durante seis anos, foram feitas pesquisas e análises que resultaram na elaboração de uma tábua de princípios norteadores para negócios e direitos humanos.
A coordenação do estudo foi feita pelo cientista político John Gerard Ruggie, que conta detalhes do processo em "Just Business -- Multinational Corporations and Human Rights" [apenas negócios -- corporações multinacionais e direitos humanos].
O volume aponta a ação de empresas em casos de violência, assédio sexual, abuso de trabalhadoras, trabalho infantil, emprego de seguranças ligados a grupos paramilitares acusados de torturar e até matar lideranças de trabalhadores. Relata como Estados são lenientes na defesa de seus cidadãos --ou temem perder investimentos de multinacionais e/ou são fracos e corruptos.
RESPONSABILIDADES
Ruggie, 69, nasceu na Áustria, mas fez sua carreira acadêmica nos EUA. Seu livro não é um levantamento exaustivo de casos de violações dos direitos humanos. O foco está na discussão sobre os parâmetros que empresas e governos deveriam usar para garantir que trabalhadores e comunidades não sejam prejudicados pela atividade empresarial.
"Estados devem proteger, companhias devem respeitar, e aqueles que foram prejudicados devem ter reparação."
Ele relata como as empresas usam de subterfúgios jurídicos para escapar de punições e agem geralmente após a divulgação do problema. Assinala que ignorar direitos pode se refletir no resultado das empresas. Lembra, por exemplo, o caso de um fundo norueguês que deixou de investir em empresas acusadas de não respeitar direitos humanos, como o Walmart.
Ruggie afirma que, "em relação a negócios e direitos humanos, nem governos nem companhias estavam preparados para essa onda da globalização". Mas não foi justamente para obter essas vantagens que as companhias migraram?
Com um enfoque otimista, ele enxerga que o seu trabalho na ONU pode ser o início de uma mudança no comportamento empresarial. Ressalta as mobilizações contra violações e defende que empresas estão se conscientizando da necessidade de fazer "negócios justos" --uma outra leitura para o título. Tomara.
"JUST BUSINESS - Multinational Corporations and human rights"
AUTOR John Gerard
EDITORA WW Norton & Company
QUANTO US$ 18,32, na Amazon (R$ 43, 304 págs.)
AVALIAÇÃO Bom

ADVOCACIA LABORALISTA EM FESTA: Aniversariante do Dia, Dr. Fabiano Barbosa

Aniversariante do Dia: Dr. Fabiano Barbosa
 
18 de janeiro, data relevantíssima para a cidadania brasileira. Aniversário do extraordinário advogado jus Laboralista Pernambucano, Dr. Fabiano Barbosa, formação humana, jurídica e política dos tempos futuros, dedicado às causas das defesas dos direitos,  humanos, sociais, laborais e previdenciários....
 
A advocacia Latino-Americana agradece a existência desse homem de perfil social e progressista a contribuir com suas ações quotidianas em prol dos avanços sociais, pugnando pela edificação de um Mundo Novo Melhor e Possível e de inclusão social.
 
Parabéns, amigo de todos nós. Feliz Aniversário
 
Luiz Salvador, atual Vice-Presidente da ALAL (www.alal.com.br)

ESTADO SOCIAL & MODELO ECONÔMICO EXCLUDENTE: Sociólogo diz que o mundo do trabalho regrediu.

Sociólogo diz que o mundo do trabalho regrediu à barbárie
http://www.protecao.com.br/upload/protecao_noticia/5860.jpg Beto Soares | Estúdio Boom
Data: 17/01/2014 / Fonte: Sinait 
A entrevista é de novembro do ano passado, mas o assunto continua atual. O sociólogo Elísio Estanque, português, no Brasil desde janeiro de 2013, como professor visitante da Unicamp, respondeu perguntas da jornalista Mônica Manir, de O Estado de São Paulo, sobre a situação dos trabalhadores no mundo, de forma geral, nestes tempos de crise.

Para Estanque, o mundo do trabalho vive uma barbárie que vai além do desemprego para desembocar num individualismo negativo, sem direitos sociais básicos. Dentro dessa barbárie estão situações que o Sinait noticia diariamente, verificadas pelos Auditores-Fiscais do Trabalho, e que vão parar na Justiça do Trabalho, principalmente por se encaixarem no desrespeito aos direitos trabalhistas. Mas é mais do que isso: a exploração e a competitividade exacerbadas levam à exaustão, à falta de lazer, ao acúmulo de atividades e jornadas prolongadas.

Embora o sociólogo não use a expressão "trabalho escravo", várias das características da exploração citadas por ele estão presentes nas situações encontradas pelos Grupos Móveis de Fiscalização. A pressão por produtividade levou vários cortadores de cana a mortes súbitas nos últimos anos que, mesmo que não tenham comprovação, são suspeitas de terem como causa a exaustão por excesso de trabalho. Acidentes de trabalho acontecem por falta de observância das regras de segurança exigidas em leis.

Rosa Jorge, presidente do Sinait, observa que muitos fatores contribuem para o quadro atual do mundo do trabalho, preocupante, que nega a qualidade de vida aos trabalhadores. A fiscalização insuficiente, por absoluta incapacidade de alcançar todas as empresas e ambientes de trabalho, é uma delas. "O número de Auditores-Fiscais do Trabalho minguou ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho se aqueceu e cresceu junto com a economia. Não há como acompanhar ou manter o mesmo patamar de alguns anos", diz ela.

As metas impostas para a fiscalização, entretanto, crescem a cada ano, sem a contrapartida do crescimento do número de Auditores-Fiscais. E têm sido cumpridas. Para Rosa Jorge, isso tem custo. "Nós também estamos sendo vítimas desse processo de individualização e competitividade. Estamos acumulando atividades para alcançar as metas, adoecendo, nos afastando do trabalho, muitos se aposentam ainda jovens. É realmente uma situação preocupante".

Leia, abaixo, a entrevista de Elísio Estanque.
21-12-2013 - O Estado de São Paulo

Menos-valia - Sociólogo vê `regressão à barbárieÂ’ e analisa o acúmulo de funções, a falta de segurança e a ausência de lazer

Elísio Estanque não vai estar dando respostas prontas nesta entrevista. Vindo do Alentejo, ele obviamente não prima pelos gerúndios característicos do infoproletariado, a massa de trabalhadores dos call centers. Mas a questão é mais que gramatical. Esse sociólogo de 61 anos se diz contra seguidismos e alinhamentos cegos. Tem estilo próprio. E vai direto ao ponto: "O que vemos nas duas últimas décadas é uma regressão à autêntica barbárie no mundo do trabalho".

Professor da Universidade de Coimbra, Elísio sentiu a feia crise em seu país. No entanto, quando fala de barbárie, não trata apenas do desemprego brutal entre os jovens portugueses. Quer discutir por que trabalhadores em geral - e não só os infoproletários - se distanciaram dos sindicatos e se trancafiaram num "individualismo negativo", sem direitos sociais básicos. "Ninguém imaginava que, mesmo nas democracias avançadas, iriam surgir fenômenos de degradação humana nesse nível", afirma.

Ele fala de acúmulo de funções, de falta de segurança, de alta rotatividade, de vigilância escamoteada, de ausência de lazer, de exaustão. Opina sobre o paradigma desenvolvimentista do Brasil, onde a taxa de desemprego de novembro, 4,6%, é mínima histórica. Também tem interesse em comparar a classe média portuguesa com a nossa "nova classe média", de que ele desconfia, e faz isso tudo a partir de Campinas, onde está desde janeiro como professor visitante da Unicamp, em companhia da mulher ucraniana.

Causou surpresa, na semana passada, o caso da redatora de uma agência de publicidade da Indonésia que morreu após trabalhar três dias seguidos em frente do computador. O pai dela, diretor executivo de outra agência, disse que a filha passara de seu limite. Como medir esse limite em tempos de infoproletariado?
Ao tomar esse evento apenas como ilustração de muitos milhares de outros que têm acontecido nos últimos tempos, eu diria que essa pressão que faz com que o trabalhador seja levado pra lá do suportável das capacidades humanas depende de um clima geral que está a exaurir a classe. Esse clima tem despojado o trabalhador daquilo que são - ou que foram - alguns direitos de segurança, de inserção social e de recompensas materiais e salariais. Nas últimas duas décadas houve uma inversão na lógica do funcionamento da economia. O mercantilismo se reforçou e está a individualizar mais as relações de trabalho. As pessoas ficam sob um controle ainda maior na medição dos indicadores da produtividade, dependente de serem ou não capazes de alcançar objetivos muitas vezes insuperáveis. Portanto, nesse caso da Indonésia e também em muitos acidentes de trabalho em que questões de segurança são descuradas, tudo representa uma vulnerabilidade muitíssimo grande do trabalhador. E isso acontece tanto em segmentos mais qualificados e de ensino superior como naqueles de menor qualificação e trabalho indiferenciado. Temos na construção civil, por exemplo, vários exemplos de risco que levam os trabalhadores a sofrer acidentes físicos, inclusive.

Nessa semana, aliás, ocorreu a morte de um operário na Arena Amazônia motivada, diz o sindicato da categoria, pela correria dos trabalhadores para entregar o estádio no prazo. Há na história momento semelhante de tamanha vulnerabilidade do trabalhador?
Nos anos 1990, Ulrich Beck, alemão que estuda essas temáticas, falava da brasileirização do mundo. Pensava na enorme precarização da força de trabalho na qual não há praticamente direitos, e sim uma enorme rotatividade e instabilidade. Só que, na Europa, não se esperava que ela fosse tão brusca, tensa e violenta. É um individualismo negativo que faz lembrar aquele que existia antes da Revolução Francesa, antes de a sociedade industrial moderna estar consolidada. Era o trabalhador colocado como força bruta, como mercadoria, totalmente dependente daquilo que fosse do interesse das entidades empregadoras. O que assistimos nas últimas duas décadas é uma espécie de regressão a esse período de autêntica barbárie. E isso é vivido, no caso dos trabalhadores da Europa, depois de eles terem passado por três décadas da chamada época de ouro do Estado previdente, quando a conquista de direitos repunha o trabalho num estatuto de reconhecimento social. Há sete, oito anos, ninguém imaginava que, mesmo nas democracias mais avançadas, surgiriam fenômenos e situações de tamanha degradação humana.

Isso, de alguma forma, tem a ver com a inovação tecnológica?
A inovação tecnológica tem sempre duas faces: a brilhante e a obscura. Há muito se vinha discutindo que, com a tecnologia, o trabalhador ficaria mais liberto do componente mais duro do trabalho, podendo usufruir de mais tempo livre. Mas a inovação tecnológica não tem acarretado consigo mais liberdade, mais autonomia, mais emancipação. Ao contrário: permite uma vigilância mais apertada. Ela cria uma precariedade que não é apenas objetiva e material, mas também psicológica, o que leva o trabalhador a recriar os instrumentos da própria vulnerabilidade.

Como isso acontece?
O trabalhador é colocado numa situação vulnerável não apenas porque sabe que pode ser deslocado de um momento para outro ou ser facilmente demitido, mas também porque incorpora a ideia de que é preferível aceitar qualquer que seja a condição de trabalho a não ter nenhum. Daí que concorda em ser colocado numa posição de maior dependência. E aceita de certo modo ser explorado até a exaustão, como naquela situação à qual nos referimos no início. Isso acontece na relação assimétrica de poder que ele mantém com a entidade patronal, uma entidade que muitas vezes nem conhece pessoalmente.

O acúmulo de funções seria uma faceta dessa exploração?
Isso se insere no paradigma das empresas enxutas, retórica enfocada a partir dos anos 1980 com o chamado Consenso de Washington, que levou a uma globalização maior dos mercados. Isso intensificou imensos fluxos do capitalismo financeiro e colocou o capitalismo produtivo a sua mercê. Na prática, isso se traduziu na tentativa de espremer ao máximo o trabalhador que fica na empresa, fez com que a polivalência deixasse de ser sinônimo de maior autonomia e margem de opção do trabalhador para torná-lo mais dependente de uma competitividade castigante. Dentro das empresas também há uma condição muito estimulada entre os trabalhadores, os prêmios de produtividade, que muitas vezes são ilusão. Se olharmos de um lado a multiplicação do lucro da atividade financeira e de outro os salários, há uma distância que se foi elevando nas últimas décadas em todos os países, a começar pelos EUA. Resumindo, essa multiplicidade de competências aconteceu por imposição de cima para baixo. A margem de negociação foi desaparecendo porque o próprio campo sindical deixou de negociar as condições de trabalho, entre elas também as horas extras.

No caso das horas extras, seria o momento de resgatar o cartão de ponto?
O cartão de ponto nos remete aos setores mais burocráticos, aos setores dos servidores públicos, nos quais, apesar de tudo, ainda existe alguma previsibilidade. A pessoa sabe que, quando deixar o local de trabalho, estará livre. Mas me parece que essas situações sejam cada vez mais excepcionais porque os servidores públicos - pelo menos na Europa, no Brasil ainda é diferente -, estão sendo igualmente descartados, enquanto os recursos públicos seguem muitas vezes a lógica do privatismo. Eu diria que o cartão de ponto, neste momento, está no bolso de todo mundo. Está no celular, no computador, nos imensos meios técnicos que as empresas possuem para controlar o que cada um está a fazer a cada momento.

Como esse trabalhador pode reagir?
Desde que o capitalismo moderno se consolidou surgiram conflitos, como o movimento ludista, em que os trabalhadores destruíram as máquinas por temer que elas viessem a substituí-los no emprego. Mas eles logo aprenderam que, sozinhos e isolados, não conseguiriam resistir de modo nenhum. A resposta tinha de ser coletiva, por força do movimento sindical, que nos países mais avançados foi sendo institucionalizado e trouxe imensas conquistas para as condições de vida. Mas hoje, num salto histórico para este momento de regressão, os sindicatos estão a ser o principal alvo da força do grande capital internacional. Houve uma viragem de paradigma nas últimas duas ou três décadas. Os sindicatos temem ser agressivos, estão muito enfraquecidos. Em parte porque, seja no infoproletariado ou em outros vínculos laborais, as empresas e o trabalho tendem a ser terceirizados. Note-se por exemplo que, aqui no Brasil, cerca de 1/3 da força de trabalho é terceirizada. Em Portugal, mais de 30% dos trabalhadores estão com contrato a termo certo, ou seja, estão em situação de precariedade. As novas gerações de força de trabalho vão entrando no mercado em condição particularmente precária e dependente, individualizada e com medo.

Esse jovem não procura o sindicato?
Apesar de muitas vezes esse jovem ser sobrequalificado, pelo menos na Europa, já que o desemprego atinge mais aqueles que passaram pela universidade, ele não procura os sindicatos. E por duas razões: uma é a pressão que existe dentro das instituições do mercado de trabalho quanto a isso; outra é o déficit de confiança que as novas gerações têm rotineiramente em relação ao sindicalismo. Ou seja, o próprio sindicalismo também não soube renovar-se e adaptar-se para responder de modo mais eficaz a esses problemas.

Portugal anunciou que gastará € 300 milhões para combater o desemprego jovem. Isso é suficiente?
Esse valor é, com certeza, insuficiente para programas de incentivo ao emprego de jovens que, na faixa abaixo dos 30 anos, ultrapassam os 40% de desempregados em Portugal. Na Espanha, são 50%. É insuficiente sobretudo se não for acompanhado de outras políticas de incentivo à recuperação da economia, o que só pode acontecer se houver, de novo, um investimento e uma alavancagem por parte do poder público e da intervenção estatal. Porque, desastrosamente, esse paradigma neoliberal parte do princípio de que tudo que é privado é eficaz e tudo que é público é custoso. Se a economia não crescer, se não houver mais oferta de emprego e trabalho assalariado, é obvio que esses jovens continuarão a sentir-se sem futuro, em busca de qualquer saída. No caso de Portugal, a saída tem sido migrar para a Alemanha, Holanda, Luxemburgo e França, ou mesmo para o Brasil.

O desemprego no Brasil caiu para 4,6% em novembro, mínima histórica antes do fim do ano. O senhor vê esse cenário com otimismo?
O que tem acontecido no Brasil é um crescimento econômico muito significativo e uma melhoria notória nas condições de trabalho, porém justamente porque a base de partida era extremamente degradante e miserável para muitos setores. E, ainda hoje, apesar das melhoras em termos de formalização do emprego em relação há 15 anos, repara-se nos altíssimos porcentuais de rotatividade. Minha leitura vale para todas as sociedades: quando se avança segundo uma orientação progressista e emancipatória de maior coesão social, maior dignidade para as classes trabalhadoras, maior acesso à saúde, à educação, à cultura, ao descanso da mente, aí estaremos a caminhar no bom sentido. Se o paradigma desenvolvimentista do Brasil sair triunfante dessa encruzilhada em que nos encontramos, é possível que a classe trabalhadora, nas próximas décadas, vá se beneficiar disso. Mas neste momento há uma grande incerteza nesse sentido. Os poderes do capitalismo global são realmente esmagadores.

ANTEBRAÇO ESMAGADO E AMPUTADO: TST mantém condenação de empresa catarinense em R$ 150 mil e pensão vitalícia.

TST mantém condenação de empresa catarinense em R$ 150 mil e pensão vitalícia por acidente de trabalho

A 6ª Turma do TST manteve a sentença do juiz Adailto Nazareno Degering, da 1ª Vara do Trabalho de São José, que condenou a Flexicotton, indústria de hastes flexíveis, a pagar indenização de R$ 150 mil, por danos morais e por danos estéticos, a um funcionário que sofreu acidente de trabalho. Ele fazia a limpeza de uma máquina, com o equipamento ligado, quando parte do braço foi esmagada. Precisou amputar o antebraço esquerdo e, segundo laudo pericial, a lesão causou incapacidade parcial e permanente.
A empresa recorreu da decisão alegando que o acidente aconteceu por culpa do empregado e também que o valor arbitrado foi muito alto.
No TRT-SC, confirmando a sentença, o desembargador-relator José Ernesto Manzi destacou que deve ser aplicada a teoria da responsabilidade objetiva quando a natureza da atividade já se caracteriza como de risco acentuado. Além disso, que não é possível culpar a vítima se a própria empresa não soube informar o procedimento correto para fazer a manutenção da máquina.
Ao chegar um novo recurso, desta vez ao TST, a indústria teve novamente o pedido negado. Os ministros entenderam que o valor arbitrado é razoável, considerando que o acidente ocorreu em razão do trabalho exercido em proveito dela e a grandeza dos danos suportados pelo empregado.
"Nas Cortes Superiores, especialmente no TST e no STJ, o montante fixado nas instâncias ordinárias somente tem sido alterado, em princípio, quando seja irrisório, ínfimo, irrelevante (evitando-se a ineficácia pedagógica da condenação ou a frustração na reparação do dano) ou, pelo contrário, quando seja exorbitante, exagerado, excessivo (evitando-se o enriquecimento sem causa do demandante ou o comprometimento temerário das finanças da demandada)”, diz o acórdão da ministra-relatora Kátia Magalhães Arruda.
Fonte: Ana Paula Steffani
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