sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ANOS DE CHUMBO & À ESPERA DA VERDADE: AI-5 já era debatido cinco meses antes, opondo Costa e Silva.

ESPECIAL 'À ESPERA DA VERDADE'
AI-5 já era debatido cinco meses antes, opondo Costa e Silva e o futuro presidente Médici
Então chefe do SNI e futuro presidente, Médici defendia medidas de exceção antes do discurso de Moreira Alves; os ministros civis Gama e Silva (Justiça) e Antonio Delfim Netto (Fazenda) também apoiavam
 
Vitor Sion, do Opera Mundi - 13/12/2013 - 06h00
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O dia 13 de dezembro entrou para a história do Brasil há 45 anos com a implementação do Ato Institucional nº 5. Diferentemente do que se pode imaginar, no entanto, o símbolo do endurecimento da ditadura militar brasileira não foi uma medida intempestiva ou revanchista do presidente Arthur da Costa e Silva (1967-1969) contra o Congresso, pelo veto à abertura de processo contra o deputado opositor Márcio Moreira Alves.
A narrativa mais tradicional desse período da história diz que o ato foi uma resposta à resistência da Câmara em processar Moreira Alves, que defendera, meses antes, um boicote às comemorações de Sete de Setembro. “Seria necessário que cada pai, cada mãe, se compenetrasse de que a presença dos seus filhos nesse desfile é o auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas”, disse o deputado na tribuna da Câmara. E, num trecho que ficou famoso: “Aquelas que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil, que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas.”
Mas o documento que fechou o Poder Legislativo, extinguiu o habeas corpus e autorizou a censura à imprensa já estava pronto muito antes do discurso de Moreira Alves e, inicialmente, tinha conteúdo ainda mais repressivo do que o aprovado por Costa e Silva.
Desde julho de 1968, a cúpula civil e militar do governo discutia o recrudescimento da legislação de exceção (“revolucionária”, conforme o discurso oficial) para evitar o sucesso daquilo que chamavam “contrarrevolução”. O país vivia, desde a morte do estudante Edson Luís, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em março, uma grande onda de manifestações, que ao mesmo tempo se antecipou e se alimentou do mítico Maio de 1968 francês.
Em duas reuniões, nos dias 11 e 16 de julho de 1968, os integrantes do Conselho de Segurança Nacional foram chamados por Costa e Silva a opinar sobre o conteúdo de uma nova medida, que teria o objetivo de interferir na cobertura da imprensa e conter a subversão.

Agência Estado
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Imagem da reunião comandada por Costa e Silva em julho de 1968
As discussões foram marcadas pela divergência entre dois presidentes do Brasil: Costa e Silva e o então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), Emilio Garrastazu Médici. Já no início do primeiro encontro, registrado na ata da reunião, Costa e Silva faz um alerta aos seus conselheiros:
Costa e Silva: O documento que os senhores membros do Conselho de Segurança Nacional têm em mãos é de caráter ultrassecreto, de modo que deve ser manuseado com a devida cautela...
Ministro dos Transportes [coronel Mario Andreazza, que em 1984 tentaria disputar a Presidência da República pelo PDS, perdendo a convenção do partido governista para Paulo Maluf]: Ele será recolhido?
Costa e Silva: Será recolhido como precaução, no entanto, se algum Ministro desejar uma leitura mais demorada, o fará sob essa condição de ultrassecreto. Este documento é uma análise feita à luz de informações positivas, muito bem estudadas e triadas, que levam conclusões, embora não devamos entender que haja algo alarmante.
Ao retomar a discussão cinco dias depois, o presidente foi ainda mais claro em suas palavras. “Nós estamos aqui justamente para decidir se o momento impõe medida de exceção ou não.”
A posição de Médici era a de que se tornava necessário tomar, “sem tardança, medidas concretas de segurança, agindo energicamente contra os elementos que ameaçam a integridade do governo e causam desassossego popular”. De acordo com o então chefe do SNI, o Brasil vivia uma guerra devido à “tentativa de conquista do poder por forças subversivas”, algo que “não é exclusivo de nosso país”.
O voto de Médici — favorável ao AI-5 já em julho de 1968 — foi acompanhado por outros seis conselheiros, sendo a fala do ministro da Aeronáutica, Marcio de Souza e Mello, aquela que mais claramente caracterizou os objetivos dessa ala do governo. “Falta uma regulamentação ou uma legislação subsidiária que, ao invés de obrigar o Estado a provar que o indivíduo transgrediu essas leis ou violou os princípios fundamentais, atue sob o efeito do delito flagrante, atribuindo-se ao indivíduo provar que não transgrediu e não um processo em que o Estado tem de ir colher provas para levar a julgamento, com toda aquela série de recursos protelatórios que prejudicam os resultados.”
A defesa pela implementação do AI-5 já em julho de 1968 não foi feita exclusivamente pelos ministros militares, como parte da imprensa noticia até hoje. Luiz Antonio da Gama e Silva (Justiça), Antonio Delfim Netto (Fazenda) e Ivo Arzua Pereira (Agricultura) também apoiaram a criação de um Ato Institucional cinco meses antes do que realizado por Costa e Silva.
Dentre as falas desses três conselheiros, a que chama mais atenção é a de Gama e Silva, com duras críticas ao Poder Judiciário (“Lá encontramos inimigos figadais da Revolução, que são contra nós, que no momento oportuno de lá não foram afastados como deveriam ter sido”) e a defesa aberta da censura à imprensa. Gama e Silva conclui: “O que nós sentimos, Senhor Presidente, é que toda essa legislação que está aí é insuficiente. [...] Essa legislação não nos dá os elementos necessários para que possamos restaurar os princípios e os propósitos da Revolução. [...] Não vejo outro remédio se não retornarmos às origens da Revolução e, através de um Ato Adicional à atual Constituição, darmos, ao Poder Executivo, os meios necessários para salvar a Revolução e com ela a felicidade, o bem-estar do nosso povo e a democracia pela qual nos batemos.”
Apesar de o AI-5 ter representado o endurecimento da ditadura brasileira, a proposta apresentada em julho era ainda mais restritiva. De acordo com o jornalista Carlos Chagas, no livro A Guerra das Estrelas (1964/1984) – os bastidores das sucessões presidenciais, o ministro da Justiça queria, além do fechamento do Congresso e da censura à imprensa, o afastamento de todos os governadores e o recesso do STF (Supremo Tribunal Federal).
Na votação terminada em 16 de julho de 1968, o AI-5 perdeu por 11 a 7, com as abstenções de Tarso de Moraes Dutra (Educação), Leonel Tavares Miranda (Saúde), Afonso Augusto de Albuquerque Lima (Interior) e José Moreia Maia (Chefe do Estado-Maior da Armada), que deram seus pareceres sem indicar um posicionamento.
Apesar da “derrota” do Ato Institucional, o presidente Costa e Silva deixou claro que a votação era apenas simbólica. “Não costumo fazer e não farei votações para obter maioria. Quero ouvir cada um e então sofrerei sozinho o ônus da decisão.”

Reprodução
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Transcrição da fala de Costa e Silva em 16 de julho, pedindo que imprensa não soubesse da possibilidade de nova medida de exceção
Ao anunciar que nenhuma medida de exceção seria tomada ao final da reunião dupla, Costa e Silva argumentou: “Entendo, como revolucionário, que qualquer ato fora da Constituição, no momento, será uma precipitação. Será, como se diz, um avanço no escuro sem necessidade. [...] O Governo resolve não adotar, de momento, qualquer medida excepcional para a contenção de uma subversão, que nós sentimos em marcha, mas que não poderá jamais atingir os seus objetivos, porque o Governo, conscientemente, honestamente, sente que ainda tem ao seu lado o povo do Brasil.”
Posteriormente, o presidente fez uma observação específica sobre a relação de seu governo com a imprensa. “Alguns elementos do governo, que têm trânsito livre em algumas empresas [de comunicação], podem procurar convencer esses homens [diretores de jornais], mas jamais o faremos pela força, jamais ordenaremos faça isso, aquilo ou aquilo outro, pois seria proporcionar os elementos que tanto eles querem e desejam para dizer que isto é uma ditadura. Não demos até hoje este motivo nem esses elementos, e não o daremos.”
No final das contas, Costa e Silva acabou cedendo e instituiu o AI-5 há exatos 45 anos. Na mesma noite, censores entraram em ação e os jornais passaram a ser apreendidos e o Congresso, fechado.
Link: http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/68040/Ai_5+ja+era+debatido+cinco+meses+antes+opondo+costa+e+silva+e+o+futuro+presidente+m

STJ: operadoras de planos de saúde podem fixar nos contratos as doenças que serão cobertas mas não podem.

Jornal do Terra

 

STJ: planos de saúde não podem restringir tipos de tratamento

 
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que as operadoras de planos de saúde podem fixar nos contratos as doenças que serão cobertas, mas não podem estipular tipo de tratamento que será utilizado pelo médico. O caso foi decidido em um processo em que empresa Itauseg Saúde S/A negou-se a autorizar procedimento que usa um robô para tratar um paciente com câncer.
De acordo com informações do processo, a empresa cancelou a autorização para uma cirurgia após constatar que o procedimento seria feito com o auxílio de robô. Segundo o medico da paciente, o tipo de tratamento era indispensável para a evitar a evolução da doença. De acordo com a ministra Isabel Gallotti, relatora do processo na Quarta Turma do STJ, as operadoras não podem negar acesso a procedimentos mais modernos para fazer o tratamento.
"Sendo certo que o contrato celebrado entre as partes previa a cobertura para a doença que acometia o autor da ação, é abusiva a negativa da operadora do plano de saúde de utilização da técnica mais moderna disponível no hospital credenciado pelo convênio e indicado pelo médico que assiste o paciente, nos termos da consolidada jurisprudência deste tribunal sobre o tema", diz a ministra.
Doenças genéticas
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) publicou normas que ampliam a cobertura obrigatória dos planos de saúde para exames de 29 doenças genéticas. A medida começa a valer a partir do dia 2 de janeiro de 2014, assim como o novo rol de procedimentos obrigatórios dos planos. Um dos exames que deverá ser oferecido é para a análise dos genes BRCA1/BRCA2, usado na detecção de câncer de mama e ovário hereditários.
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Outro incluído na lista é o teste para a diagnóstico da síndrome de Lynch, doença que aumenta o risco de câncer intestinal e outros tumores. De acordo com a ANS, testes genéticos já eram obrigatórios, e com as novas diretrizes, ficam definidos critérios para uso da tecnologia e tratamento dessas doenças. No total, foram acertadas 22 normas relacionadas à assistência, ao tratamento e aconselhamento de doenças genéticas. Uma das exigências, por exemplo, é que o exame seja prescrito por um geneticista. A lista com as doenças abrangidas está disponível no site da ANS.
Agência Brasil
 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Diálogos sobre a vida e a Mineração.



Diálogos sobre a vida e a mineração

Carta aberta de Religiosas, Religiosos, Leigos e Leigas
cuidadores dos bens da Criação em América Latina


Somos religiosas, religiosos, leigos e leigas de América Latina interpelados pela grave situação de nossos povos frente à indústria extrativa, impactados dia após dia pela destruição da Criação, pela exploração indiscriminada dos Bens Comuns, pela repressão e exclusão que geram conflitos sociais, afetam os Direitos Humanos e destroem ecossistemas vitais.
Tentamos elaborar em conjunto estratégias de resposta a essa complexa realidade, à luz do Evangelho.

Em novembro de 2013, encontramo-nos em Lima como grupo inicial, que nasceu desde as experiências concretas de quem trabalha nas regiões de conflito com empreendimentos extrativos.
No Peru, país latino-americano com os melhores indicadores de desenvolvimento econômico, a Defensoria del Pueblo evidenciou que a mineração é a maior fonte de conflitos sociais.
Em todos os nossos países, o extrativismo é uma fonte de constantes e graves conflitos.

Estavam presentes no encontro trinta pessoas, vindo de Salvador, Honduras, Colômbia, Equador, Peru, Chile, Argentina, Brasil, mas também religiosas/os e leigas/os que trabalham em agências internacionais como VIVAT International, Franciscans International e Mercy Internacional (ONGs de diversas congregações religiosas na ONU) e no escritório de Justiça, Paz e Integridade da Criação dos franciscanos OFM de Roma. O processo foi apoiado e acompanhado por Misereor, a agência de desenvolvimento da igreja católica na Alemanha.

Ao longo dos últimos anos, o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), várias dioceses e conferências de bispos católicos, bem como o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), aprofundaram e debateram os conflitos provocados pelos grandes projetos de mineração e energia em nossos Países.
As comunidades cristãs, em muitos casos, foram protagonistas da resistência a esses projetos, em defesa de direitos e tradições locais e em busca de alternativas a esse modelo desenvolvimentista e espoliador, com raízes coloniais.

As organizações cristãs de base sentiram a necessidade de relançar a articulação entre elas e dentro da igreja institucional, em espírito ecumênico.
O contexto é extremamente desafiador: os pastores e líderes cristãos que defendem as comunidades, o meio ambiente e os trabalhadores frente aos impactos da mineração são cada vez mais criminalizados e perseguidos, se encontram isolados e em vários casos pouco apoiados pelas instituições das igrejas ou congregações às quais pertencem. Várias catequistas, irmãs, padres ou pastores foram mortos, ameaçados ou afastados das comunidades junto às quais viviam e lutavam.

As populações tradicionais são as mais impactadas pelos grandes projetos extrativos. Muitas doenças são adquiridas; seus territórios tradicionais são devastados, suas culturas e espiritualidades ameaçadas.
Preocupam-nos os ataques aos direitos indígenas arduamente conquistados, nas últimas décadas, diante das pressões das empresas mineradoras. As populações nativas não são respeitadas em seu direito de veto à construção de grandes hidrelétricas e à exploração mineral nos territórios que pertenceram aos seus ancestrais.

Frente a esse preocupante cenário, há uma necessidade extrema de compor laços de aliança entre quem assumiu a missão cristã de cuidar da Criação, fortalecendo inclusive o diálogo com a hierarquia de nossas igrejas. Alegrou-nos muito a participação de dom Guilherme Werlang, bispo do Brasil[1], ao longo de todo o encontro de Lima, bem como o apoio de Papa Francisco à luta contra a mineração em grande escala[2], expressado em recente encontro em Roma: sinais importantes que apontam para o futuro.

Ao longo do primeiro encontro em Lima definimos algumas pistas de convergência e trabalho para os próximos tempos:

  • Queremos contribuir com a releitura bíblico-teológica dos princípios que fundamentam o compromisso cristão por justiça, paz e integridade da criação (JPIC). Queremos aprofundar as conexões entre os valores sagrados das tradições de nossos povos, a cultura do Buen Vivir e a mensagem cristã, no compromisso comum pela defesa da vida. Vamos trabalhar à inclusão desses temas na educação popular das comunidades cristãs.
  • Queremos dialogar com a igreja institucional católica, com as redes de igrejas evangélicas, com as coordenações de nossas congregações religiosas. Buscaremos fortalecer nosso diálogo com o CLAI e promover um encontro de reflexão e retiro em que representantes dos afetados por mineração peçam ao Vaticano amparo e defesa de seus direitos e estilos de vida.
  • Queremos construir pontes entre as comunidades impactadas e as instituições internacionais de defesa dos direitos humanos, através da missão das religiosas e religiosos que trabalham nas Nações Unidas, nas coordenações nacionais e internacionais de JPIC e nas redes internacionais de luta contra os impactos da mineração.

Para isso, convocamos a um debate permanente sobre esses pontos os religiosos-as e lideranças leigas da America Latina, sensíveis a essa urgência e dispostos a esse compromisso em defesa das comunidades atingidas por mineração.

Queremos voltar a nos encontrar no Brasil, no final de 2014, para afirmar estes e novos compromissos, com um grupo maior e mais articulado, para que nossos povos sintam a proximidade das igrejas e para que tudo, neles, tenha vida em abundância.

Lima, 4-5 de novembro de 2013


Para contatos e maiores informações:  iglesiaymineria@gmail.com


[1] Presidente da Comissão Episcopal Brasileira para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz.

SAÚDE DO TRABALHADOR & ATIVIDADE DE RISCO: Maria Maeno debate condições de saúde, meio ambiente laboral.

SAÚDE DO TRABALHO

Em debate, médica critica empresas 'verdes por fora e cinzentas por dentro'

Foto: Maria Maeno

Pesquisadora da Fundacentro lembra que muitas companhias já foram condenadas por expor trabalhadores a condições inadequadas
por Viviane Claudino, da RBA publicado 11/12/2013 17:46, última modificação 11/12/2013 19:05
São Paulo – Em conferência sobre saúde do trabalhador, hoje (11), a médica do Trabalho Maria Maeno, pesquisadora da Fundacentro (fundação vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego), afirmou que o desenvolvimento sustentável é um termo muito usado pelas empresas para valorizar a sua imagem, mas algumas delas "são verde por fora e cinzenta por dentro". Ela lembrou que Santander, Perdigão, Sadia, Walmart, Petrobras, Itaú, entre outras companhias, já foram condenadas a partir de diferentes ações do Ministério Público do Trabalho (MPT), por demissões de trabalhadores adoecidos, exposição de trabalhadores a substâncias tóxicas e desrespeito a pausas mínimas de trabalho, entre outros problemas.
"São grandes empresas que se dizem sustentáveis e com responsabilidade corporativa, que plantam árvores, mas sabemos que isso não e bem assim. Eles não contam a quantidade de lixo que produzem nem como tratam a saúde de seus trabalhadores", disse a médica, durante a 1ª Conferência Estadual de Saúde do Trabalhador, organizada pela CUT paulista. O evento, que vai até amanhã, visa a sistematizar propostas para serem encaminhadas à conferência nacional, prevista para novembro do ano que vem.
Para Maria Maeno, é necessário criar uma relação entre a saúde do trabalhador e o meio ambiente, como movimentos históricos, com perspectivas diferentes e pontos em comum. "Quando discutimos o Brasil funcionando 24 horas por dia, discutimos o mundo do consumo e países que optaram por esse modelo econômico. Mas não podemos esquecer que isso significa mais trabalhadores em ciclos nocivos à sua saúde e mais lixo no meio ambiente. Quando falamos em rios poluídos, devemos falar também da forma de coleta que temos e das condições de trabalho que isso envolve."
Ela destaca que a abordagem das empresas está sempre direcionada ao indivíduo. "Se ele sofreu um acidente, é porque não prestou atenção. A utilização que as empresas fazem para culpar o trabalhador pelo seu acidente é generalizada. São inúmeras as doenças hoje provocadas pelo trabalho, o que só aumenta o ônus para toda a sociedade."
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, em 2012 o Brasil teve mais de 700 mil acidentes de trabalho. Em São Paulo, foram cerca de 245 mil – destes, cerca de 40 mil referem-se à denúncias feitas por sindicatos ou outras fontes, excluídas as empresas. Do total de acidentes no ano passado no estado, 53% atingiram trabalhadores de 19 a 34 anos. Em média, 18 empregados por dia não retornaram ao trabalho, por invalidez ou morte.
"O mundo do trabalho é cruel. O recurso financeiro, em vez de ser gasto com saúde e prevenção, está sendo utilizado para doença, invalidez e acidentes. Temos de nos organizar e mudar essa lógica, porque ao capital não interessa fazer essa mudança”, afirma a secretária da Mulher Trabalhadora da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social (CNTSS), Maria Godói.
Para ela, o debate sobre as condições de saúde deve ser feito em conjunto com outros relacionados ao mundo do trabalho. Terceirização, competitividade, pressão pelo cumprimento de metas, rotatividade, pessoas expostas a ritmo acelerado, instabilidade e ameaça de desemprego estão diretamente interligados à saúde.
"Para propiciar um mundo de trabalho competitivo, tudo gira em torno de valor financeiro e não humano. Isso cria um sentimento de vulnerabilidade que reflete na vida social dos trabalhadores, com aumento das doenças ocupacionais, hipertensão, assédio moral, distúrbios mentais, estresse, doenças respiratórias", afirma a sindicalista. "A saúde não pode ser isolada do resto. Sabemos do enfrentamento que temos de fazer nas inúmeras áreas, porque a meta do capital não é a nossa, ela não observa a vida."
Discussões sobre nanotecnologia também fizeram parte da conferência. Segundo alguns dos participantes, a nanotecnologia vem ganhando espaço nas mesas de negociações. A manipulação da matéria em escalas muito pequenas ainda tem efeitos pouco conhecidos por parte de trabalhadores e patrões.
"Se tivermos de pensar numa escala, podemos imaginar o nanômetro como um grão de areia, localizado entre Salvador e Natal, na distância de 1.126 quilômetros entre estas duas cidades”, afirma o técnico do Dieese Thomas Ferreira Jensen. "O mesmo material considerado seguro na escala maior, na escala nanopartícula pode entrar na pele, ou se tornar aerosol e entrar no organismo via respiratória."
Segundo o Dieese, no Brasil existem cerca de 150 empresas envolvidas com projetos de desenvolvimentos de produtos em nanotecnologia, interagindo com setor acadêmico, com destaque para as petroquímicas e cosméticos. Desde 2008, os trabalhadores do ramo químico discutem em negociação coletiva os riscos que envolvem a nanotecnologia e tentam inserir cláusula em convenção, mas enfrentam resistência do lado patronal. Em abril do ano passado, o setor farmacêutico foi o primeiro a aceitar a inclusão do tema em acordo, como recomendação para as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (Cipas) abordarem com os trabalhadores os riscos existentes e medidas de proteção.
"A incorporação do progresso técnico tanto pode ser benéfica como danosa. Ainda não há estudos confiáveis para avaliar os riscos da nanotecnologia na saúde do trabalhador, mas é necessário incorporar essas tecnologias a um processo seguro", afirma Jensen. As negociações e estudos em torno de nanotecnologias envolvem as assessorias do Dieese, Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat), Fundacentro e sindicatos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

ATIVIDADE DE RISCO & JORNADA ESTENUANTE, ESTRESSE: Ministério do trabalho.

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Operador do guindaste do Itaquerão estava sem folga havia 18 dias

Segundo Ministério do Trabalho, horas extras estavam dentro da lei, mas devem ser limitadas para evitar acidentes

REDAÇÃO ÉPOCA, COM AGÊNCIA BRASIL
10/12/2013 16h50
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Guindaste desabou levando parte parte da arquibancada do futuro estádio do Corinthians (Foto: William Volcov / Brazil Photo Press/Agência O Globo)Guindaste desabou levando parte  da arquibancada do futuro estádio do Corinthians (Foto: William Volcov / Brazil Photo Press/Agência O Globo)
O Ministério do Trabalho e Emprego informou nesta terça-feira (10) que José Valter Joaquim, operador do guindaste das obras da Arena Corinthians, em São Paulo, trabalhava há 18 dias seguidos, tendo cumprido horas extras diariamente nesse período. Joaquim operava o guindaste quando um acidente matou dois funcionários no final do mês passado.
Segundo o superintendente do ministério do Trabalho em São Paulo, Luiz Antonio Medeiros, o cumprimento das horas extras é permitido pela legislação, mas deveria ser limitado para evitar danos aos trabalhadores. “Devido à rapidez da obra, todo o dia aqui tem duas horas extras por dia. Estava conversando com a Odebrecht [construtora responsável pela obra] no sentido de limitar isso”, disse. Ele ressaltou que o trabalho por um período ininterrupto é legal.
O operador de guindaste é funcionário da Locar, empresa contratada pela Odebrecht para operar esse tipo de equipamento. A Locar ainda não se pronunciou sobre o caso. Em nota, a Odebrecht informou que, no período relatado pelo ministério, o operador do guindaste ficou, na maior parte do tempo, em área designada aguardando a liberação da peça para o içamento.
O Ministério do Trabalho fez nova vistoria nesta terça-feira no estádio do Corinthians, mais especificamente nos guindastes utilizados na obra. A equipe do ministério chegou ao local por volta das 9h30 e, até as 14h30, quatro guindastes haviam sido vistoriados. O balanço da inspeção será divulgado ao final do dia. A expectativa é que até o dia 16 todas as máquinas estejam liberadas, inclusive a grua quebrada, que ainda está no local.
O Itaquerão, como é conhecido, sediará a abertura da Copa do Mundo de 2014 e mais cinco jogos da competição, em junho do próximo ano. Antes do acidente, a previsão para finalização do estádio era dezembro deste ano. A entrega ficou para abril de 2014.
bc
 
 
Leia mais.
 

Ministério do Trabalho diz que operador de guindaste estava há 18 dias sem folga

iG São Paulo
Responsável por máquina que provocou acidente e morte de dois operários da Arena Corinthians trabalhou por mais de duas semanas seguidas
O Ministério do Trabalho esteve nesta terça-feira na Arena Corinthians, em Itaquera, e informou que o operário José Walter Joaquim, de 56 anos, responsável pela operação do guindaste que quebrou e matou dois operários no dia 27 de novembro completou 18 dias seguidos de trabalho sem folga no dia do fatalidade.
Segundo Luiz Antônio Medeiros, superintendente regional do Ministério do Trabalho, ainda não é possível dizer se havia um acordo para que Joaquim trabalhasse todos esses dias sem folga ou que há irregularidade nesta relação trabalhista, mas que é possível comprovar sua presença na obra nesses dias pelo relógio de ponto da obra. 
Procurada pelo iG, a Odebrecht não se pronunciou sobre o assunto até o fechamento desta nota às 13h. 
Velas são colocadas na Arena Corinthians nesta quinta-feira, um dia depois do acidente que matou dois operários
Velas são colocadas na Arena Corinthians nesta quinta-feira, um dia depois do acidente que matou dois operários
Foto: SERGIO BARZAGHI / Gazeta Press
Torcedores do Corinthians observam os estragos causados pelo acidente ocorrido nesta quarta-feira, durante as obras do Itaquerão
Torcedores do Corinthians observam os estragos causados pelo acidente ocorrido nesta quarta-feira, durante as obras do Itaquerão
Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Moradores da região do Itaquerão observam os danos causados pela queda de parte da estrutura da cobertiura do estádio
Moradores da região do Itaquerão observam os danos causados pela queda de parte da estrutura da cobertiura do estádio
Foto: Oslaim Brito/Futura Press
Movimentação de paramédicos de bombeiros ao lado da arquibancada da Arena Corinthians, após acidente que matou dois operários
Movimentação de paramédicos de bombeiros ao lado da arquibancada da Arena Corinthians, após acidente que matou dois operários
Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Acidente na Arena Corinthians deixou dois mortos e um ferido, segundo o Corpo de Bombeiros
Acidente na Arena Corinthians deixou dois mortos e um ferido, segundo o Corpo de Bombeiros
Foto: GERO/FUTURA PRESS
Acidente compromete o andamento das obras da Arena Corinthians, em Itaquera, que tinha entrega prevista para dezembro de 2013
Acidente compromete o andamento das obras da Arena Corinthians, em Itaquera, que tinha entrega prevista para dezembro de 2013
Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Parte da cobertura da Arena caiu sob o painel de LED do estádio
Parte da cobertura da Arena caiu sob o painel de LED do estádio
Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Acidente na Arena Corinthians aconteceu na hora do almoço
Acidente na Arena Corinthians aconteceu na hora do almoço
Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Após o acidente, as obras foram evacuadas e paralisadas
Após o acidente, as obras foram evacuadas e paralisadas
Foto: Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Acidente na Arena Corinthians deixou dois mortos, segundo o Corpo de Bombeiros
Acidente na Arena Corinthians deixou dois mortos, segundo o Corpo de Bombeiros
Foto: GERO/FUTURA PRESS
Guindaste que instalava parte da cobertura desabou sobre painel de LED
Guindaste que instalava parte da cobertura desabou sobre painel de LED
Foto: GERO/FUTURA PRESS
O estádio tinha entrega prevista para dezembro de 2013
O estádio tinha entrega prevista para dezembro de 2013
Foto: GERO/FUTURA PRESS
Engenheiros observam o local do acidente que matou dois operários na obra da Arena Corinthians, em Itaquera
Engenheiros observam o local do acidente que matou dois operários na obra da Arena Corinthians, em Itaquera
Foto: Bruno Winckler/iG
Joaquim era contratado da Locar, uma empresa terceirizada pela Odebrecht e responsável pelo guindaste que cedeu e provocou o acidente de duas semanas atrás. Em depoimento à polícia, o operador negou que tenham cometido algum erro na operação que colocava uma peça de 450 toneladas para fechar a cobertura do estádio. 
Era a 38ª e última vez que esse tipo de procedimento era realizado, sempre com Joaquim como operador. Uma peça de igual proporção foi instalada uma semana antes do acidente no setor Sul do estádio.