terça-feira, 24 de setembro de 2013

FOLHA DE SÃO PAULO: DIRCEU FOI CONDENADO SEM PROVAS, DIZ IVES.

 
Foto: Ives Gandra
Dirceu foi condenado sem provas, diz Ives Gandra
MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
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O ex-ministro José Dirceu foi condenado sem provas. A teoria do domínio do fato foi adotada de forma inédita pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para condená-lo.
Sua adoção traz uma insegurança jurídica "monumental": a partir de agora, mesmo um inocente pode ser condenado com base apenas em presunções e indícios.
Quem diz isso não é um petista fiel ao principal réu do mensalão. E sim o jurista Ives Gandra Martins, 78, que se situa no polo oposto do espectro político e divergiu "sempre e muito" de Dirceu.
Com 56 anos de advocacia e dezenas de livros publicados, inclusive em parceria com alguns ministros do STF, Gandra, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, diz que o julgamento do escândalo do mensalão tem dois lados.
Um deles é positivo: abre a expectativa de "um novo país" em que políticos corruptos seriam punidos.
O outro é ruim e perigoso pois a corte teria abandonado o princípio fundamental de que a dúvida deve sempre favorecer o réu.
Folha - O senhor já falou que o julgamento teve um lado bom e um lado ruim. Vamos começar pelo primeiro.
Ives Gandra Martins - O povo tem um desconforto enorme. Acha que todos os políticos são corruptos e que a impunidade reina em todas as esferas de governo. O mensalão como que abriu uma janela em um ambiente fechado para entrar o ar novo, em um novo país em que haveria a punição dos que praticam crimes. Esse é o lado indiscutivelmente positivo. Do ponto de vista jurídico, eu não aceito a teoria do domínio do fato.
Por quê?
Com ela, eu passo a trabalhar com indícios e presunções. Eu não busco a verdade material. Você tem pessoas que trabalham com você. Uma delas comete um crime e o atribui a você. E você não sabe de nada. Não há nenhuma prova senão o depoimento dela -e basta um só depoimento. Como você é a chefe dela, pela teoria do domínio do fato, está condenada, você deveria saber. Todos os executivos brasileiros correm agora esse risco. É uma insegurança jurídica monumental. Como um velho advogado, com 56 anos de advocacia, isso me preocupa. A teoria que sempre prevaleceu no Supremo foi a do "in dubio pro reo" [a dúvida favorece o réu].

Adriano Vizoni/Folhapress

O jurista Ives Gandra Martins durante evento em São Paulo
O jurista Ives Gandra Martins durante evento em São Paulo
Houve uma mudança nesse julgamento?
O domínio do fato é novidade absoluta no Supremo. Nunca houve essa teoria. Foi inventada, tiraram de um autor alemão, mas também na Alemanha ela não é aplicada. E foi com base nela que condenaram José Dirceu como chefe de quadrilha [do mensalão]. Aliás, pela teoria do domínio do fato, o maior beneficiário era o presidente Lula, o que vale dizer que se trouxe a teoria pela metade.
O domínio do fato e o "in dubio pro reo" são excludentes?
Não há possibilidade de convivência. Se eu tiver a prova material do crime, eu não preciso da teoria do domínio do fato [para condenar].
E no caso do mensalão?
Eu li todo o processo sobre o José Dirceu, ele me mandou. Nós nos conhecemos desde os tempos em que debatíamos no programa do Ferreira Netto na TV [na década de 1980]. Eu me dou bem com o Zé, apesar de termos divergido sempre e muito. Não há provas contra ele. Nos embargos infringentes, o Dirceu dificilmente vai ser condenado pelo crime de quadrilha.
O "in dubio pro reo" não serviu historicamente para justificar a impunidade?
Facilita a impunidade se você não conseguir provar, indiscutivelmente. O Ministério Público e a polícia têm que ter solidez na acusação. É mais difícil. Mas eles têm instrumentos para isso. Agora, num regime democrático, evita muitas injustiças diante do poder. A Constituição assegura a ampla defesa -ampla é adjetivo de uma densidade impressionante. Todos pensam que o processo penal é a defesa da sociedade. Não. Ele objetiva fundamentalmente a defesa do acusado.
E a sociedade?
A sociedade já está se defendendo tendo todo o seu aparelho para condenar. O que nós temos que ter no processo democrático é o direito do acusado de se defender. Ou a sociedade faria justiça pelas próprias mãos.
Discutiu-se muito nos últimos dias sobre o clamor popular e a pressão da mídia sobre o STF. O que pensa disso?
O ministro Marco Aurélio [Mello] deu a entender, no voto dele [contra os embargos infringentes], que houve essa pressão. Mas o próprio Marco Aurélio nunca deu atenção à mídia. O [ministro] Gilmar Mendes nunca deu atenção à mídia, sempre votou como quis.
Eles estão preocupados, na verdade, com a reação da sociedade. Nesse caso se discute pela primeira vez no Brasil, em profundidade, se os políticos desonestos devem ou não ser punidos. O fato de ter juntado 40 réus e se transformado num caso político tornou o julgamento paradigmático: vamos ou não entrar em uma nova era? E o Supremo sentiu o peso da decisão. Tudo isso influenciou para a adoção da teoria do domínio do fato.
Algum ministro pode ter votado pressionado?
Normalmente, eles não deveriam. Eu não saberia dizer. Teria que perguntar a cada um. É possível. Eu diria que indiscutivelmente, graças à televisão, o Supremo foi colocado numa posição de muitas vezes representar tudo o que a sociedade quer ou o que ela não quer. Eles estão na verdade é na berlinda. A televisão põe o Supremo na berlinda. Mas eu creio que cada um deles decidiu de acordo com as suas convicções pessoais, em que pode ter entrado inclusive convicções também de natureza política.
Foi um julgamento político?
Pode ter alguma conotação política. Aliás o Marco Aurélio deu bem essa conotação. E o Gilmar também. Disse que esse é um caso que abala a estrutura da política. Os tribunais do mundo inteiro são cortes políticas também, no sentido de manter a estabilidade das instituições. A função da Suprema Corte é menos fazer justiça e mais dar essa estabilidade. Todos os ministros têm suas posições, políticas inclusive.
Isso conta na hora em que eles vão julgar?
Conta. Como nos EUA conta. Mas, na prática, os ministros estão sempre acobertados pelo direito. São todos grandes juristas.
Como o senhor vê a atuação do ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso?
Ele ficou exatamente no direito e foi sacrificado por isso na população. Mas foi mantendo a postura, com tranquilidade e integridade. Na comunidade jurídica, continua bem visto, como um homem com a coragem de ter enfrentado tudo sozinho.
E Joaquim Barbosa?
É extremamente culto. No tribunal, é duro e às vezes indelicado com os colegas. Até o governo Lula, os ministros tinham debates duros, mas extremamente respeitosos. Agora, não. Mudou um pouco o estilo. Houve uma mudança de perfil.
Em que sentido?
Sempre houve, em outros governos, um intervalo de três a quatro anos entre a nomeação dos ministros. Os novos se adaptavam à tradição do Supremo. Na era Lula, nove se aposentaram e foram substituídos. A mudança foi rápida. O Supremo tinha uma tradição que era seguida. Agora, são 11 unidades decidindo individualmente.
E que tradição foi quebrada?
A tradição, por exemplo, de nunca invadir as competências [de outro poder] não existe mais. O STF virou um legislador ativo. Pelo artigo 49, inciso 11, da Constituição, Congresso pode anular decisões do Supremo. E, se houver um conflito entre os poderes, o Congresso pode chamar as Forças Armadas. É um risco que tem que ser evitado. Pela tradição, num julgamento como o do mensalão, eles julgariam em função do "in dubio pro reo". Pode ser que reflua e que o Supremo volte a ser como era antigamente. É possível que, para outros [julgamentos], voltem a adotar a teoria do "in dubio pro reo".
Por que o senhor acha isso?
Porque a teoria do domínio do fato traz insegurança para todo mundo.

MUNDO DO EURO ESTÁ SALVO

·         MUNDO DO EURO ESTÁ SALVO
Só sorridos, Merkel reeleita promete continuidade do sucesso alemão, o vagão que puxa a economia da europa. Agora vai ser a vez da redenção dos direitos humanos,k sociais, laborais, contra os processos de flexibilização e precarização laboral. Viva! Será por certo a prevalência da responsabilidade social do capital por assegurar a empregabilidade digna e de qualidade, em meio ambiente laboral, livre de acidentes e ou de adoecimentos ocupacionais.
Leia a notícia da vitória eleitoral de Ângela Merkel

Link: http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/videos/angela-merkel-promete-mais-quatro-anos-de-sucesso,487794.html

Angela Merkel promete mais "quatro anos de sucesso"
Resultado oficial ainda não foi anunciado, mas chanceler alemã já comemora vitória nas eleições alemãs; sigla de Merkel obteve 42% dos votos
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CIDADANIA PLANETÁRIA & FAMÍLIA HUMANA

CIDADADANIA PLANETÁRIA & FAMÍLIA HUMANA
Por outra economia possível e de inclusão social.
“Os céus é do Senhor, mas a terra Deus a deu aos seus filhos”(Salmo, 115)
O proveito deve atender a todos os cidadãos, sem abusos, discriminações, exclusões sociais.
A ALAL – Associação Latino-Americana de Advogados Laboralistas defende uma proposta aos trabalhadores do mundo, o da edição de uma legislação supra-nacional reguladora dos direitos de livre circulação, num mundo novo sem fronteiras e de inclusão social
Link: http://www.alal.com.br/materia.asp?cod_noticia=6065
Noticia
 
Socialismo de mercado, alternativa realista al capitalismo
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Socialismo de mercado, alternativa realista al capitalismo
Por Jordi Corominas
Sant Julià de Lòria, Andorra
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Son muchos los movimientos y grupos en todo el mundo críticos con el orden existente e implicados en la lucha contra la miseria. Innumerables las personas que, sin participar en grupos o acciones alternativas, reconocen que el actual sistema económico nos lleva al abismo. Sin embargo, hay algo que resulta paralizador o que conduce simplemente a posiciones fatalistas, cuando no cínicas: la falta de una alternativa a la estructura económica. En los socialismos del siglo XX se experimentó que el control centralizado del mercado, aunque los dirigentes y los trabajadores hubieran sido ángeles, producía ineficiencias mayores que un mercado capitalista regido por demonios. Entonces, por más guerras, desplazamientos de población, catástrofes ambientales y aumento de la miseria que cause el capitalismo, éste puede absorber sin problemas toda crítica moral y todo pataleo porque siempre puede presentarse como el menos malo de los modelos económicos conocidos hasta ahora. ¿Pero hasta qué punto es cierto que no hay alternativas que mejoren el capitalismo? Y sin ir tan lejos, ¿no es reformable el capitalismo de modo que se pueda sacar del umbral de la miseria a toda la humanidad sin necesidad siquiera de buscar alternativas sistémicas?
Un sistema económico es capitalista (independientemente de si se combina con un régimen político democrático o una dictadura) si mantiene tres características esenciales: una propiedad privada de los medios de producción, un mercado regido por la oferta y la demanda, y un trabajo asalariado; y deja de serlo cuando se altera alguna de estas tres características. De ese modo, controlar por ley ciertos productos básicos, nacionalizar algunas empresas, ofrecer seguridad social, educación y sanidad gratuita constituyen reformas importantes del sistema, pero no un cambio de régimen económico. En cambio, el control estatal del mercado y de la propiedad de los medios de producción nos introduce en el modelo comunista conocido en el siglo XX.
En la actualidad, de los casi 7 mil millones de personas que vivimos bajo el sistema capitalista, la mayoría es pobre. 1000 Millones de personas viven en una pobreza extrema, con menos de 1 dólar por día, 1500 viven en una pobreza moderada, con menos de dos dólares por día y 2000 millones viven en una pobreza relativa (en Europa el umbral de la pobreza está fijado en 752 euros mensuales y 80 millones están por debajo de él en la Comunidad Europea). Se dibujan escenarios mucho más catastróficos: se estima que en los próximos años 200 millones de personas pueden verse permanentemente desplazadas por las inundaciones, el aumento del nivel del mar y las guerras, ahora también incentivadas por la lucha por los recursos básicos. Si es imposible crecer permanentemente, sí que es posible un ciclo permanente de crecimiento y destrucción basado en guerras periódicas. Aunque no sobreviviera más que una cuarta parte de la población mundial, todavía quedarían unos 1600 millones de personas, la misma población que tenía el planeta en 1900.
Por suerte, en el mismo capitalismo también se dibujan escenarios de signo contrario. Aunque son muchos los economistas que defienden que hay una relación esencial entre capitalismo, guerras y aumento de la miseria, diversos socialdemócratas defienden que una socialdemocracia mundial podría humanizar el capitalismo imponiendo medidas como una renta básica universal para todo ciudadano del mundo. Sin embargo, aun concediendo que un capitalismo de rostro humano es posible y que las guerras no son intrínsecas al sistema, hay algo que no tiene solución ni en el mejor de los capitalismos posibles, y es que la economía en su conjunto debe crecer para permanecer sana. Sin una tasa de un mínimo del 3% de crecimiento anual una socialdemocracia mundial también nos llevaría a escenarios catastróficos (3% es lo que sigue creciendo el PIB en el mundo aún después de la crisis de 2008). Pero un crecimiento del 3% anual supone doblar el consumo cada 24 años y a este ritmo consumiremos 16 veces más en 2100 que en el 2000. Sorprendentemente son muchos los economistas que parecen creer en esta utopía: la posibilidad de un crecimiento infinito ante unos recursos limitados.
Si es imposible perpetuar el crecimiento, ¿tenemos que asumir necesariamente un ciclo de recesiones, guerras y destrucciones para sanear el capitalismo o la vuelta a una economía comunista? El socialismo de mercado pretende ser una tercera vía entre ambos sistemas, que para la estabilidad no depende del crecimiento, y que continúa favoreciendo la eficiencia y la innovación de los emprendedores. En este modelo económico la propiedad privada de los medios de producción es sustituida por una propiedad democrática, manteniéndose el libre mercado y el trabajo asalariado. Los directores de empresa no responden ante los accionistas sino ante los trabajadores, que eligen la dirección y aprueban las directrices básicas. Hay suficientes experiencias que muestran que empresas productivas pueden ser dirigidas democráticamente sin perder eficiencia siempre que se dé un cierto grado de autonomía a la dirección y que los trabajadores entiendan y ejerciten la cultura cooperativa.
Para mantener el capital inicial toda empresa es obligada a mantener un fondo de amortización. Los beneficios obtenidos se reparten según el criterio de los trabajadores, que pueden optar por pagar más a un gerente o a determinados trabajos. En caso de que la empresa no genere los ingresos mínimos, los trabajadores tienen que cerrarla para buscar trabajo en otro lugar, y los medios de producción regresan a la sociedad. El mercado sigue funcionando en la asignación de bienes de consumo y de los bienes de capital según las leyes de la oferta y la demanda. Los fondos de inversión se generan no ofreciendo un interés a los ahorradores (mercado de dinero), sino gravando los bienes de capital. Estos fondos son controlados socialmente abriéndose diferentes alternativas. En un extremo son los parlamentos los que planifican la inversión, en el otro son totalmente libres: los bancos reciben los fondos y los prestan a empresas que quieren expandir la producción o mejorar su tecnología, o a los individuos o colectivos que quieren empezar un nuevo negocio.
En el socialismo de mercado las empresas no necesitan crecer compulsivamente para mantenerse, cuestión que parece imposible aún en el mejor de los capitalismos posibles. Una empresa capitalista persigue maximizar el beneficio de los inversores, mientras que una empresa democrática persigue maximizar el beneficio para cada trabajador. De ese modo, los accionistas de una empresa capitalista pueden doblar su beneficio doblando el tamaño de su empresa, mientras que si una empresa democrática dobla su tamaño, dobla el número de trabajadores y el beneficio para cada trabajador no cambia demasiado. Otra ventaja comparativa respecto al mejor de los capitalismos posibles es que cuando una innovación conlleva mayor productividad y ganancias, los trabajadores pueden escoger tiempo libre en lugar de aumentar el consumo.
En los socialismos del siglo XX la transición pasaba necesariamente por la toma del poder político en un
Estado; en el socialismo de mercado el cambio se puede hacer sin alterar profundamente la situación actual: 1, abolición de las obligaciones de las empresas de pagar intereses o dividendos por las acciones; 2, declaración de que la única autoridad legal de la empresa son sus trabajadores; 3, introducción de un impuesto sobre el capital de las empresas cuyo monto irá a parar a un fondo social de inversión; y 4, la nacionalización de los bancos, que pasarán a administrar los fondos de inversión.
Al día siguiente de todo esto, las personas seguirían yendo a sus lugares de trabajo y haciendo vida normal. El único cambio drástico sería para los accionistas. Para evitar conflictos con los anteriores propietarios de los medios de producción, se les podría conceder una compensación en forma de generoso honorario que podrían seguir recibiendo durante una o dos generaciones.
Lo interesante es que existe ya una amplia base empírica que muestra que este modelo es eficiente, pues son muchas las empresas regidas democráticamente. Actualmente la mayor de ellas, líder en cooperativismo, es la Corporación Mondragón (País Vasco, España). Cuenta con 83000 empleados, 9000 estudiantes, presencia en 20 países y en múltiples sectores de la economía. Fortuna Magazine la citaba en 2003 como una de las mejores compañías para trabajar en Europa. Esta experiencia concreta, competitiva incluso en el marco del capitalismo, muestra algo muy importante: que como aconteció en la transición del feudalismo hacia el capitalismo, los cambios pueden comenzar a suceder mucho antes de que cambie el poder político del Estado.
Todo lo que en un contexto capitalista conduce a una mayor democratización de todos los ámbitos y a una mayor participación de los trabajadores en el ámbito productivo ya es, sin duda, un avance hacia una sociedad distinta. El socialismo de mercado va de la mano con las luchas por la democratización y transparencia económica de todas las estructuras empezando por las universidades, ONGs, iglesias, escuelas, grupos y partidos que quieran contribuir a una sociedad distinta, y en él pierden todo sentido y autoridad las organizaciones de carácter vertical o dictatorial, ya sean éstas una institución de la ONU, como el Consejo de Seguridad, o una pequeña asociación de barrio.
[Hay una amplia literatura sobre el tema. Una de las propuestas más interesantes es la de David Schweickart, Más allá del capitalismo, Sal Terrae 2002. Cfr. sus textos más recientes en:www.luc.edu/faculty/dschwei/articles.htm, incorporando un amplio bagaje filosófico, véase A. González, La transformación posible, ¿socialismo en el siglo XXI?, Bubok 2010].

DESTRUIÇÃO DA SELVA PERUANA

Oro negro contamina la Amazonía
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No solo la minería artesanal y la deforestación están destruyendo la selva peruana
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Foto: Magali Zevallos. diario16
La mayor productora de gas y petróleo en nuestro país es la empresa Argentina Pluspetrol, que se encuentra asentada desde hace trece años en territorio de cuatro pueblos indígenas: Achuar, Quechua, Cocama y Urarinas (lote 1AB y 8), en la región Loreto. La ubicación de los lotes sobre el territorio de estos cuatro pueblos no se ha visto reflejado con ningún beneficio para las poblaciones indígenas, la explotación petrolera ha significado para ellos la destrucción de sus bosques, la contaminación de sus suelos y ríos; la desaparición de sus quebradas y lagunas (cochas), y por ende la depredación de sus únicas fuentes de alimentación. Es decir, la seguridad alimentaria y la salud de estas poblaciones se encuentran amenazadas.
Para palpar esta realidad fuimos hasta Andoas. El viaje es un desafío, comprende aire, carretera y surcar durante 19 horas los ríos Huallaga, Marañón y Pastaza. El vuelo de Lima hacia Tarapoto dura una hora; para hacer la conexión a Yurimaguas se requiere de un auto, 125 Km. de carretera, aproximadamente 3 horas de viaje.
Al llegar a la comunidad achuar Nueva Andoas, población que convive desde hace cuatro décadas con la explotación de petróleo, -primero con la administración de Occidental Petroleum y posteriormente a cargo de Pluspetrol- donde se encuentra el Lote 1AB, que produce más de 15,000 barriles de petróleo por día, no cuenta con un puerto fluvial, hay un aeropuerto de la empresa de uso exclusivo de la petrolera. Los servicios básicos como agua, desagüe no existen, salvo algunas piletas de agua que han sido colocadas por la empresa. La cobertura de salud y educación es otro drama.
Pese a los millonarios ingresos generados por la explotación de este recurso, las comunidades de influencia directa e indirecta están abandonadas. En estas zonas tampoco llegan los programas sociales, la bandera de la inclusión social le sigue dando la espalda a estas poblaciones, que durante décadas vienen sufriendo los embates del impacto acumulativo de la extracción petrolera.
Derrame de hidrocarburo
Del 2007 al 2011, los programas de vigilancia territorial indígena han reportado 112 derrames de hidrocarburos, así lo afirma el informe "Impactos Petroleros en Territorios Indígenas: Experiencias del Programa de Vigilancia Territorial del río Corrientes y los registros de derrames de los Programas de Vigilancia Territorial Indígena”, elaborado por las federaciones indígenas, como: FECONACO, FEDIQUEP y FECONAT.
De los 82 Derrames acontecidos en el lote 1AB, 71 han sido reportados en la Cuenca del Río Corrientes, 10 en la Cuenca del Pastaza y 1 en la Cuenca del Río Tigre.
Más de la mitad de los derrames identificados han tenido su origen en fallas del ducto de transporte de hidrocarburos, además de los desbordes de los tanques sumideros y de pozas. Las tuberías que trasladan el petróleo están deterioradas porque fueron instaladas en los años 70.
Emergencia Ambiental
De las cuatro cuencas afectadas por el impacto de las actividades de hidrocarburos: Pastaza, Corrientes, Marañón y Tigre, las dos primeras han sido declaradas en emergencia ambiental.
El presidente de la Federación Indígena Quechua del Pastaza (Fediquep), Aurelio Chino Dahua, denunció la inacción del Estado peruano ante la declaratoria de emergencia ambiental en Pastaza, vigente desde hace seis meses (marzo), por lo que demandó la presencia del presidente Ollanta Humala y el jefe de gabinete Juan Jiménez, para que se tomen medidas concretas para dar solución a esta problemática.
"En la cocha Ushpayacu hubo muchos derrames, lo que ha hecho Pluspetrol es llenar con tierra, ahora en esa laguna ya no hay peces. Se puede destruir una laguna con total impunidad”, se pregunta el apu.
Estas afirmaciones las pudimos constatar haciendo un recorrido de los puntos críticos de contaminación, la quebrada Ushpayacu hoy es un depósito de crudo, el olor es fuerte y se puede observar cómo salen burbujas de color negro. La segunda parada es en la laguna Shanshococha que hace cuatro décadas era la fuente de alimentación de las comunidades, acá se puede ver como flota el petróleo en algunos ojos de agua.
Los bosques y los suelos también han sido impactados. Se han deforestado bosques para uso de botaderos, que son pozas excavadas que no cuentan con procedimientos mínimos para el manejo de residuos sólidos, como el recubrimiento de geomembrana.
Guardianes ambientales
Frente a la ausencia de organismos supervisores y de fiscalización, como el Organismo Supervisor de la Inversión en Energía y Minería y el Organismo de Evaluación y Fiscalización Ambiental, el trabajo que vienen realizando desde el 2007 los monitores ambientales, que se encuentran agrupados en las Federaciones indígenas, ha sido de vital importancia para visibilizar el desastre ambiental en esta zona.
El informe elaborado por el Grupo de Trabajo sobre la Situación Indígena de las Cuencas de los ríos Tigre, Pastaza, Corrientes y Marañón, de la Comisión de Pueblos Andinos, Amazónicos y Afroperuanos, Ambiente y Ecología del Congreso de la República, afirma que a la fecha el Estado Peruano no cuenta con un registro que permita identificar los pasivos ambientales derivados de las actividades de hidrocarburos.
"En la selva peruana hay problemas por el abandono de infraestructura petrolera, suelos contaminados por efluentes, derrames, fugas, emisiones, depósitos de residuos petroleros en quebradas, ríos, cochas, otros, que aún no se encuentran considerados en instrumentos de gestión ambiental”, sostiene el documento.
Inicio de diálogo
Con la declaratoria de emergencia ambiental en Pastaza se ha iniciado el diálogo entre las comunidades indígenas, Pluspetrol y el Estado.
En la última Asamblea promovida por la Fediquep, Alfredo Zúñiga, gerente de Relaciones Comunitarias de la Pluspetrol reconoció que existe una grave contaminación en la zona.
Está en manos del Estado y las autoridades determinar las responsabilidades de la contaminación y los pasivos ambientales. Y que los espacios de diálogo permitan revertir la ruptura que hay entre el Estado y las poblaciones indígenas, quienes en nombre del desarrollo viven contaminados desde hace 40 años.

TRABALHO INFANTIL

Jovens trabalham com fogo para torrar castanhas no Rio Grande do Norte

Depois de torrar, começa a função repetitiva de quebrar a casca da castanha. As condições de trabalho são precárias. Lanternas e candeeiros trazem um pouco de luz para as mesas onde os trabalhadores batem os porretes bem pertinho dos dedos.

No Brasil, milhões de crianças e adolescentes ainda trabalham. Muitas vezes, se arriscam em trabalhos pesados. A maioria, pela necessidade de ajudar os pais.
É madrugada. Na área rural de João Câmara, no Rio Grande do Norte, pequenos pontos de luz brilham na escuridão. Mais de perto dá para ver: são chamas acesas pelas famílias que não podem dormir.
Elas precisam trabalhar na melhor hora do sono.  E são dezenas de pessoas: homens, mulheres com filhos, parentes e vizinhos. São operários de um ofício exaustivo, artesanal, tocado de forma rudimentar, quase primitiva.
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A comunidade toda sobrevive do beneficiamento da castanha do caju. Em cada palhoça, é possível encontrar famílias inteiras trabalhando. Todo esforço é necessário porque eles ganham por produção. E, mesmo assim, trabalhando na madrugada escura, juntando toda a família, o rendimento é pequeno. É quase nada.
Dona Francisca do Nascimento quebra castanhas de caju desde os 12 anos de idade. Ela, o marido, o filho e um sobrinho formam uma unidade de produção.
Globo Repórter: Vocês ganham quanto por semana?
Francisca Barbosa do Nascimento, descascadora de castanhas: O máximo que a gente ganha é 100 contos, 90 reais, 110 conto, 120 é o máximo. É um sacrifício que não é pouco. É muito.
A parte mais perigosa é lidar com o fogo. Há dois anos, Carlos, que tem 18, encara a fumaça, as labaredas e o calor para torrar as castanhas que serão descascadas. É preciso muita atenção porque as castanhas soltam um óleo inflamável e as chamas aumentam de repente.
Globo Repórter: Já se queimou alguma vez?
Jovem: Já. Na mão, no braço.
Globo Repórter: É muito calor aqui perto?
Jovem: É quente.
Globo Repórter: Você lida quantas horas por dia com este fogo aqui?
Jovem: Sete horas, oito horas.
Globo Repórter: Você tem medo deste trabalho?
Jovem: Não. Tenho de viver disto aqui mesmo.
Depois de torrar, começa a função repetitiva de quebrar a casca da castanha. Eles trabalham sérios, em silêncio. Só se escuta o som das pequenas batidas do porrete nas castanhas.
As condições de trabalho são precárias. Lanternas e candeeiros trazem um pouco de luz para as mesas onde os trabalhadores batem os porretes bem pertinho dos dedos.
Das cascas torradas como carvão, é retirada uma amêndoa saborosa pra quem consome, mas que tem gosto amargo de exploração e de exclusão para os trabalhadores.
Quando o dia começa a clarear, por volta das 5h30, o expediente já começou faz tempo. Algumas famílias estão trabalhando desde as 2h. E é tanta fumaça que parece até uma neblina cobrindo toda a comunidade.
Mal dá pra ver as casas, no povoado envolto na fumaça espessa que vem de dezenas de palhoças de beneficiamento de castanha. A claridade revela a presença de pequenos trabalhadores.

Leandro, Alexandre e Taline. Os três filhos de Dona Ana Maria já nascem com o destino traçado. Taline é a mais nova, está com 14 anos. Ela tem as mãos manchadas da nódoa escura que sai da castanha.
Globo Repórter: O que você acha deste trabalho?
Menina: Não é muito legal não, mas é o jeito.
Globo Repórter: E como é que você acha que deveria ser a vida de uma garota de 14 anos?
Menina: Estudando, se divertindo.
A realidade é bem dura para as crianças e adolescentes que vivem em João Câmara. A equipe do Globo Repórter encontrou meninos e meninas tão pequenas que é preciso colocar tijolos debaixo das cadeiras pra que elas possam atingir a altura das mesas.
Globo Repórter: Quantos anos você tem?
Menino: Nove.
Globo Repórter: O que é pior pra você, mais difícil?
Menino: A preguiça.
Preguiça? Crianças em pé, ou em posição desconfortável em tábua e cadeiras velhas, durante horas, curvadas repetindo movimentos. No dicionário da família de Seu Gilvan do Nascimento, não existe a palavra preguiça. Ele e os três filhos trabalham 12 horas por dia.

Globo Repórter: Os seus filhos trabalham à partir de que idade?
Gilvan: Tudo começa de 14 anos em diante.
Globo Repórter: Estão todos fora da escola?
Gilvan: Tudinho, tudinho.
Todos os adultos que encontramos não estudaram e os jovens abandonaram a escola.
Na escola rural os reflexos do trabalho precoce são dramáticos.  A maioria é de alunos pequenos. Os maiores começam a faltar e mais tarde abandonam por completo a sala de aula. E mesmo os mais novos já trazem as marcas do trabalho precoce.
Ele é bem pequeno. Tem só 8 anos de idade e a prova de que trabalha descascando a castanha de caju está nas mãos. Estão cheias de nódoas, estão descascando. E como ele lava as mãos com água sanitária para tirar a sujeira, a pele vai ficando bem fininha, até sem as impressões digitais. E, muitas vezes, vai cortando, vai ferindo a mãozinha.
Globo Repórter: E o que você faz?
Menino: Quebro e despelo.
Globo Repórter: Quantas horas por dia você trabalha?
Menino: Umas três.
Globo Repórter: E para limpar a mão, como é que você faz?
Menino: Eu boto água sanitária na bacia e esfrego.
Globo Repórter: E às vezes machuca a mão?
Menino: Corta
Crianças condenadas a repetir o destino dos pais. “O jovem daqui, muitos jovens não sabe ler. A assinatura ainda é assim, antigamente, assinando com as digitais”, afirma Selma Teixeira, diretora da escola.
E na família do Seu José Raimundo, são três gerações, descascando castanha para os atravessadores, ganhando apenas o suficiente pra sobreviver.
Globo Repórter: Quem da família trabalha aqui com o senhor?
José Raimundo da Silva, descascador de castanhas: Trabalham quatro filhos, seis netos e um genro.
O rosto coberto de suor é o da neta de 15 anos. A menina sofre com o calor. É dela a obrigação de manter o fogo para torrar as castanhas. E tem que mexer a panela pra não deixar queimar. O corpo miúdo sente o esforço. Respirar fumaça é quase inevitável e as pequenas queimaduras também.
Globo Repórter: Não é difícil para uma menina como você?
Menina: É difícil, mas a gente precisa.
Apesar do cansaço, Suziane não desistiu da escola, nem do sonho.
Globo Repórter: O que você espera do futuro?
Menina: Do futuro eu espero uma faculdade, trabalhar, sair desta vida. Meu sonho é cuidar de criança.
 
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Meninos e meninas têm as mãos queimadas por ácido e perdem digitais na quebra da castanha do caju. Mesmo após denúncias, problema persiste no Rio Grande do Norte
Texto e fotos por Daniel Santini, da Repórter Brasil
da série especial Promenino*
Enviado a João Câmara (RN) - Olhe a ponta do seu dedo. Repare no conjunto minúsculo de linhas que formam sua identidade. Essa combinação é única, um padrão só seu, que não se repete. As crianças que trabalham na quebra da castanha do caju em João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, não têm digitais. A pele das mãos é fininha e a ponta dos dedos, que costumam segurar as castanhas a serem quebradas, é lisa, sem as ranhuras que ficam marcadas a tinta nos documentos de identidade.
O óleo presente na casca da castanha de caju é ácido. Mais conhecido como LCC (Líquido da Castanha de Caju), esse líquido melado que gruda na pele e é difícil de tirar tem em sua composição ácido anacárdico, que corrói a pele, provoca irritações e queimaduras químicas. No vilarejo Amarelão, na zona rural de João Câmara, as castanhas são torradas – além de corroer a pele, o óleo é inflamável – e quebradas em um sistema de produção que envolve famílias inteiras, incluindo as crianças.
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Com a pele cada vez mais lisa, as pontas dos dedos perdem as digitais, e as linhas e traços de identidade se esfacelam (clique nas fotos para ampliar)
O óleo é pegajoso. Basta pegar uma castanha e quebrá-la para ficar com a pele manchada por alguns dias. Nem todas as crianças e os adultos que trabalham no processo sabem que o óleo é ácido. Muitos acham que a mão fica assim machucada por conta da água sanitária utilizada para tirar o preto encardido da mão depois de horas seguidas manuseando e quebrando as castanhas torradas. “Se fosse assim, as pessoas que usam água sanitária para limpeza estariam roubadas! É o óleo LCC que tem uma ação irritante, ele é cáustico, produz lesões e chega a retirar as digitais”, explica o médico Salim Amed Ali, autor de diferentes estudos sobre doenças ocupacionais para a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), do Ministério do Trabalho e Emprego. A perda da identidade não é permanente. Com o tempo, as digitais voltam se a pessoa se afastar da atividade.
Sobrevivência
O médico fez pesquisas específicas sobre a saúde de trabalhadores de unidades industriais de processamento de castanhas de caju e diz que a atividade pode ser considerada insalubre. No caso em questão, em que a produção é totalmente artesanal e as famílias dependem do trabalho para sobreviver, ele destaca quão contraditória é a situação. “A subsistência está calcada em condições de trabalho inviáveis. Para viver, o sujeito precisa se submeter a condições inaceitáveis e as crianças acabam sacrificadas. Não dá para aceitar isso em pleno século 21”, afirma.
Um menino e uma adolescente se revezando ao redor da mesa. A garota é quem cuida do fogo, alimenta a lata improvisada com cascas de castanha e controla as labaredas espirrando água com uma garrafinha. A fumaça sobe e cobre seu rosto. Um cachorro dorme perto do fogo. Eles estão nessa atividade desde a madrugada, começaram às 3 horas. É preciso começar cedo, no sol do sertão nordestino, não dá para continuar com o calor de meio-dia.
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Os trabalhos começam cedo, devido ao calor do sertão nordestino; ao meio-dia, o sol é muito forte para prosseguir
O garoto tem 13 anos e, assim como a irmã, cursou até a quarta série do ensino fundamental mas tem dificuldades para ler e escrever. Largou a escola na quinta série porque teria de viajar uma hora de ônibus para ir até uma que atende alunos mais velhos, localizada na área urbana de João Câmara – trabalhar e estudar ao mesmo tempo já é difícil quando a escola é perto; quando não há escolas perto, impossível. Ele quebra as castanhas com agilidade, seus dedos fininhos seguram, selecionam e escapam das pancadas duras.
São poucas as palavras, ambos trabalham em silêncio e as respostas são curtas. Na mesa vizinha, os mais velhos reclamam da falta de água – a que a prefeitura tem entregue para abastecer as cisternas do bairro é salobra. “Dá dor de barriga e aí a gente tem de comprar água de garrafa, vê se pode”, conta uma mulher de 63 anos, que já passou fome e acha melhor que as crianças trabalhem com castanhas do que colhendo algodão ou roçando pasto para o gado, atividades que exerceu quando criança.
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Meninas, meninos, pais, mães e famílias inteiras se misturam para organizar a produção das castanhas
Em outra unidade de produção, uma família adapta o ritmo à existência de um recém-nascido. Uma adolescente, também de 15 anos, se reveza com o marido de 18 anos e sai, de tempos em tempos, para amamentar o bebê. “Eu lavo as mãos bem antes de pegá-lo, para não sujá-lo”, conta a mãe, antes de fazer uma pausa às 4 horas. O trabalho costuma ir até as 11 horas e, à tarde, todos trabalham tirando a pele fininha.
O emprego de crianças na quebra da castanha de caju está incluído na lista de piores formas de trabalho infantil, ao lado de atividades como beneficiamento do fumo, do sisal e da cana-de-açúcar. A situação a que estão submetidas as crianças de João Câmara (RN) não chega a ser novidade. A auditora fiscal do trabalho Marinalva Cardoso Dantas, coordenadora do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador, tem realizado sucessivas ações de fiscalização, denunciado a situação e cobrado soluções. “Não dá para aceitar que as crianças continuem nessa situação, mas não basta reprimir, é preciso oferecer alternativas”.
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A representante do poder público reconhece o problema na região, mas admite: “não conseguimos avançar”
Além de identificar as crianças e reunir informações para relatório a ser entregue ao Conselho Tutelar da cidade, ela também tem procurado cobrar providências por parte da prefeitura sobre a situação das famílias. Os programas sociais são considerados insuficientes pelos moradores, que reclamam da atuação do poder público. “Sabemos do que está acontecendo, mas até agora não conseguimos avançar”, admite Maria Redivan Rodrigues, secretária de Assistência Social e primeira-dama de João Câmara, que promete solucionar o problema em um ano, até setembro de 2014. O Brasil se comprometeu a erradicar as piores formas de trabalho infantil até 2015, mas, mesmo com denúncias, situações com a de João Câmara persistem.
Em 24 de fevereiro de 2012, o promotor Roger de Melo Rodrigues, do Ministério Público Estadual, abriu o Inquérito Civil nº 06.2012.00003777-7 após denúncias. “Ele disse que ia processar as famílias, tentou proibir as pessoas de trabalhar, deixou todo mundo apavorado. Foi muito ruim”, diz Ivoneide Campos, presidente da Associação Comunitária do Amarelão. “A fumaça faz mal, a gente sabe, mas as famílias não querem mudar o método com que sempre trabalharam. E não adianta forçar, tem de transformar em querer, ajudar na busca de alternativas”, defende.
Procurado para comentar a reclamação, o promotor negou, em nota, que sua atuação tem sido meramente repressiva. Ele diz que “os problemas relacionados à queima de castanha, tais como impacto ambiental, danos à saúde dos moradores e trabalho infantil, não têm passado desapercebidos do Ministério Público Estadual” e que “em vez de buscar a repressão de delitos relacionados ao caso, esta Promotoria tem priorizado o diálogo com a respectiva comunidade, já havendo sido realizadas duas reuniões no local com todos os interessados e representantes de órgãos municipais, estaduais e federais, objetivando a construção de um consenso para solucionar o caso”.
O promotor reclama, porém, que embora “busque uma resposta adequada e legítima aos problemas, tem enfrentado alguma resistência relacionada ao costume já enraizado, da parte de algumas famílias locais, de proceder à queima de castanhas ao alvedrio dos respectivos danos decorrentes, o que não impedirá uma atuação isenta e efetiva para a resolução do caso”.
Potiguar
Entre as famílias que dependem do processamento de castanhas de caju para sobreviver estão as de um assentamento localizado na região de índios Potiguar, um dos poucos núcleos remanescentes dessa etnia que no passado povoou o estado inteiro. Os ganhos são mínimos. A castanha crua é comprada de pequenos produtores da região de Serra do Mel. Um saco de 50 kg rende, em média, 10 kg de castanha processada. As famílias contam que ganham de R$ 30 a R$ 100 por semana, vendendo a produção a intermediários que revendem em feiras e mercados de cidades.
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Assim que as castanhas estão torradas, as mãos se levantam; pancadas quebram uma noz, depois outra e outra, e outra
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O óleo se esparrama em torno das unhas, pela ponta dos dedos e, quando se vê, as mãos inteiras já estão cheias de ácido
“Tentamos identificar quem lucra com isso, mas é um sistema muito primitivo. As indústrias organizaram a produção e estão processando diretamente as castanhas, não identificamos nenhuma envolvida. Os intermediários são pequenos comerciantes que adquirem o produto diretamente com as famílias”, explica o auditor fiscal José Roberto Moreira da Silva.
Criatividade na busca por soluções para as famílias não falta. Nilson Caetano Bezerra, do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador Aprendiz, por exemplo, sonha em fazer parcerias com as empresas de produção de energia eólica, que fazem multiplicar o número de torres de geração na região, para empregar adolescentes como aprendizes. E em providenciar máquinas para que os adultos não tenham de manusear as castanhas torradas. Experiências com mecanização já aconteceram, mas o descasque manual ainda é o preferido porque a taxa de desperdício é menor.
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Mesmo que já exista formas de produção mecanizadas, ainda há preferência pelas técnicas manuais, que seriam mais produtivas
Em fevereiro, o juiz Arnaldo José Duarte do Amaral, titular da 9ª Vara do Trabalho de João Pessoa, visitou a comunidade e também encontrou as crianças trabalhando na produção de castanhas. Ele escreveu um artigo sobre a questão e, desde então, tenta articular soluções e envolver mais interessados em resolver o problema. “Quando estive lá como juiz, me perguntavam se ia prender alguém. Não é esse o papel do judiciário, o objetivo não é prender ninguém, é achar solução”, diz, defendendo a formação de cooperativas e mecanismos de economia solidária como o melhor caminho para erradicar o trabalho infantil e melhorar a condição de trabalho dos adultos. “A gente tenta corrigir essas questões há séculos, sem sucesso. Não bastam ações repressivas, que vão além de tentar punir.”
* Reportagem produzida em parceria com Promenino/Fundação Telefônica Vivo, e publicada também no site Promenino, que reúne mais informações sobre combate ao trabalho infantil